O Sacerdote e a Mãe do Senhor

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Na manhã do dia 26 de março, realizamos uma inédita celebração na simpática cidade de Coronel Pacheco, quando ordenamos o primeiro padre lá nascido, nosso tão estimado pachequense Rafael Coelho do Nascimento. Foi uma data memorável, sendo aquela cerimônia de Ordenação Presbiteral a primeira que se realizou na Paróquia São Vicente de Paulo desde seus primórdios, quando nosso primeiro Bispo, Dom Justino José de Santana, a criou, em 1955.

A ordenação aconteceu sob os reflexos da Solenidade da Anunciação do Anjo a Maria, a encarnação do Verbo, o início de nossa redenção, festa celebrada no dia anterior. Deus enviou seu Filho nascido de uma mulher. “Bendita entre todas as mulheres”, proclamará Santa Isabel, ao vê-la subir, pressurosa, o aclive do Monte Arim Karem. Naquele momento da encarnação do Verbo no seio virginal de Maria, o céu se encontra com a Terra, Deus se faz homem para nos salvar. É bela a expressão de São Leão Magno lida no Ofício das Leituras: “A humildade foi assumida pela majestade, a fraqueza pela força, a mortalidade pela eternidade… Aquele que é verdadeiro Deus é também verdadeiro homem… Nem Deus sofre mudança com esta condescendência de sua misericórdia nem o homem é destruído com sua elevação a tão alta dignidade.”

Esta realidade acontece, de algum modo, também quando Deus faz de uma pessoa humana partícipe do sacerdócio único e eterno do seu Filho Jesus. A ordenação é uma ação de Deus que transforma o organismo espiritual do eleito, à semelhança do que aconteceu com Maria, dando a ele a missão de possibilitar a realização da obra salvadora de Cristo. Ao padre, é conferida a extraordinária graça de agir in persona Christi.

Desta forma, Nossa Senhora se torna, para o sacerdote, modelo e proteção. O padre se espelha na sua abertura total para Deus, através da observância de sua palavra, na disposição de obedecer livremente às indicações da Igreja para o exercício de seu ministério. O “sim” de Maria ao Arcanjo Gabriel é total e irrestrito: “Eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra”. Este é também o “sim” do padre ao deitar-se debruço diante do altar do Senhor. Sua vontade pessoal agora transforma-se em doação total, como total e indivisa foi a doação da Virgem Santíssima.

No exercício ministerial do padre ou de qualquer pessoa consagrada, sua vontade pessoal desaparece, para realizar tão somente a vontade do Senhor indicada pela Igreja a quem servirá, generosamente, por toda a sua vida. Esta obediência, que dignifica e liberta a alma, se expressa também no gesto de pôr suas mãos entre as mãos do Bispo que o ordena, prometendo obediência e respeito a ele e a seus sucessores.

Além disso, as ordenações de Padre Rafael e do Padre Robert César Teixeira, esta realizada no dia 19 de março, também são marcadas fortemente pela mística sinodal, tão valorizada pelo amado Papa Francisco e já vivida por nós em nossa Igreja Particular juiz-forana há mais de dez anos, numa tentativa de caminharmos sempre e cada vez mais juntos na obra evangelizadora e santificadora. Os Sínodos nos ajudam a viver como verdadeiros irmãos, sem orgulho ou vaidade, sem inveja ou competições inúteis. Move-nos a palavra de Jesus sempre repetida: “Que todos sejam um como eu e Tu, Pai, somos um, para que o mundo creia” (Jo 17,21).

Os sagrados ensinamentos da Igreja nos indicam o padre como um ser sinodal, pois não é padre sozinho, mas é ordenado para uma comunidade de presbíteros, em união e sob a coordenação do Bispo, como está escrito no Decreto Conciliar Presbiterorum Ordinis: “Os presbíteros formam um só presbitério na diocese para cujo serviço estão escalados sob a direção do Bispo próprio” (PO 8).

Dom Gil Antônio Moreira
Arcebispo Metropolitano de Juiz de Fora

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