Igreja: mistério e instrumento de comunhão

A comunhão na Igreja, longe de ser um conceito meramente sociológico ou organizacional, brota do próprio mistério do Deus Uno e Trino, que se revela na história como proximidade, compaixão e ternura. O Papa Francisco diz que a Igreja é “uma comunhão missionária”, na qual todos os vínculos são dinamizados pelo encontro com Cristo e pela abertura ao outro (cf. Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, n. 23). Não se trata de uma comunhão fechada em si mesma, mas de uma realidade essencialmente expansiva, que nasce da experiência do Evangelho e se traduz numa Igreja “em saída”, capaz de ir ao encontro das periferias humanas e existenciais. A comunhão, assim compreendida, não é uniformidade, mas unidade viva na diversidade, sustentada pelo Espírito e ordenada ao anúncio da Boa Nova e à edificação no amor.

A Igreja nasce do mistério da Trindade e alimenta-se do amor divino. Acolhe o mistério santo de Deus e deve testemunhá-lo, crescendo como sinal de comunhão que se expressa nas relações vivas entre os fiéis: na abertura sincera a Deus, na escuta mútua, na fraternidade concreta e na inserção solidária na vida das pessoas. Trata-se de uma comunhão que se constrói no interior da história e da cultura, marcada por tensões e limites, mas continuamente chamada a superá-los à luz do Evangelho. A Igreja deve ser “o lugar da misericórdia gratuita, onde todos possam sentir-se acolhidos, amados, perdoados e encorajados” (Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, n. 114). Além disso, a comunhão eclesial exige uma superação constante das tentações que a ameaçam. Tanto o apego a formas do passado, que buscam segurança em estruturas já incapazes de comunicar o Evangelho, quanto o entusiasmo acrítico pelo novo, que despreza a sabedoria da tradição, são formas de fuga que fragilizam a comunhão. A verdadeira unidade da Igreja nasce do discernimento espiritual, que reconhece a ação de Deus e orienta a missão segundo o sabor do Evangelho. Nesse sentido, a comunhão é inseparável do dinamismo histórico e cultural: ela se encarna no tempo e exige conversão contínua, de modo que as tensões e conflitos próprios da finitude e da fragilidade humana sejam superados num horizonte mais alto para o qual Deus mesmo nos conduz, em que o bem comum e a verdade do Evangelho orientam as decisões.

Por fim, a comunhão na Igreja revela seu sentido profundo quando se compreende que ela está a serviço da dignidade humana e do florescimento da vida em todas as suas dimensões, conforme a palavra de Jesus: “Eu vim para que todos tenham vida, e a tenham abundância” (Jo 10,10). Ao viver a proximidade, a compaixão e a ternura – especialmente com os mais pobres e feridos –, a Igreja torna visível o valor inalienável de cada pessoa. A comunhão é a forma concreta pela qual o amor de Deus se comunica ao mundo, restaurando vínculos, curando feridas e abrindo caminhos de esperança. Numa sociedade marcada pelo individualismo e pela fragmentação, a comunhão eclesial aparece como sinal profético de uma humanidade reconciliada. Assim, a Igreja, vivendo a comunhão, torna-se sacramento de unidade e instrumento eficaz da presença salvadora de Cristo na história.

Dom Marco Aurélio Gubiotti
Arcebispo Metropolitano de Juiz de Fora

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