O coração aberto de Jesus Cristo

*Imagem: Site da Comunidade Shalom

Com o fim do Tempo Pascal, a Igreja nos propõe três solenidades. A primeira delas, celebrada no domingo seguinte, é a Solenidade da Santíssima Trindade. Na ocasião, pelas leituras bíblicas, a Mãe Igreja reconduz nossa mente ao Jardim do Éden para ver como tudo começou. Deus é que nos criou e criou todas as coisas. Há um amor tão grande na Trindade que resulta na maravilhosa obra da criação.

A segunda solenidade é a de Corpus Christi, celebrada na quinta-feira seguinte. A Igreja nos leva ao Cenáculo, a fim de que possamos recordar o que aconteceu nas vésperas da morte do Senhor, quando Jesus tomou o pão e disse “isto é meu corpo”, tomou cálice com o vinho e disse “isto é o meu sangue”, segundo os relatos de São Marcos (Mc 14, 22.24). São Lucas recordará que Jesus, ao instituir a Sagrada Eucaristia, ordenou aos apóstolos: “fazei isto em memória de mim” (Lc 22, 19). Oito dias depois, na sexta-feira subsequente, celebramos a solenidade do Sacratíssimo Coração de Jesus. A Mãe Igreja nos transporta agora para o alto do Monte Calvário, para recordar o que aconteceu com Jesus e com o seu coração no dia de sua morte no Gólgota.

Diante do Cristo crucificado, São João testemunha presencialmente a cena em que o Centurião se aproxima para quebrar as pernas dos supliciados, contudo não rompendo as de Cristo, por constatar que já estava morto. Para evitar dúvidas, o mesmo soldado de Pilatos, segundo o relato bíblico, abre o seu lado com uma lança, atingindo o coração do qual saíram sangue e água (cf. Jo 19, 31-37). São Marcos, bem como São Mateus, registram ainda que o Centurião, neste momento, exclamou: “Verdadeiramente, este homem era o filho de Deus” (Mc 15, 39, Mt 27,34). As palavras do Centurião são uma profecia para que a humanidade toda reconheça a verdade sobre o Cristo Salvador.

Os Santos Padres, primeiros teólogos da Igreja, sempre viram, no sangue e na água que jorraram do coração de Cristo, as imagens vivas dos sacramentos do Batismo e da Eucaristia. A água vem significar o ato sagrado com o qual fomos lavados de nossos pecados, quando nos tornamos filhos de Deus, discípulos do Senhor, membros da sua Igreja. De fato, Jesus vai dizer ao final de sua presença humana na Terra: “Ide por todo mundo, pregai o evangelho a todas as criaturas, batizai-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” (Mt 28, 19-20).

Quanto à Eucaristia, o sangue vertido e o corpo sacrificado no altar da cruz são a realidade física do místico vinho oferecido no cálice e o pão sacramental repartido na Ceia Pascal do dia anterior. A Igreja sempre anunciou esta verdade, cantada a partir do século XVIII, no belíssimo hino composto por Mozart (João Crisóstomo Wolfgang Teófilo Amadeus Mozart, nascido em 1756 e falecido em 1791), “Ave Verum Corpus natum de Maria Virgine…”, cuja tradução é “Ave, ó verdadeiro corpo, nascido de Maria Virgem, que verdadeiramente padeceu e foi imolado sobre a cruz em favor dos homens, de cujo lado perfurado jorrou água e sangue: fazei que nós o possamos degustar na hora suprema de nossa morte. Ó Doce Jesus, ó Jesus Piedoso, ó Filho de Maria. Tende piedade de mim. Amém!”

No alto do Calvário, Jesus dá a sua vida por nós e apresenta o seu coração como fonte de todo amor. Também os Santos Padres, sobretudo Santo Agostinho, veem neste lado aberto de Jesus uma recordação do Jardim do Éden, quando Deus criou o homem e de seu lado criou a mulher, da mesma forma que do lado aberto pela lança fez nascer a sua Igreja, como sua esposa, a esposa do Cordeiro imolado, como nos inspira o Apocalipse de São João (cf. Ap 21,2).

Aquele coração aberto de Jesus no alto do Calvário, recordado na solenidade litúrgica do Sagrado Coração de Jesus a partir das experiências místicas de Santa Margarida Maria Alacoque no século XVII, é a porta por onde nós entramos na Igreja, o local onde somos perdoados mediante nossa contrição, e a mesa onde somos alimentados, revigorados no itinerário que nos conduz para o perene banquete na casa do Pai, onde reina a plenitude do amor trinitário e eterno.

Enquanto estamos a caminho, buscamos reparar as injúrias e as ingratidões rezando amorosamente: Sagrado Coração de Jesus, nós confiamos em Vós! Fazei nosso coração semelhante ao vosso.

Dom Gil Antônio Moreira
Arcebispo Metropolitano de Juiz de Fora

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