“Eu quero. Fique curado” (Mc 1, 41)

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Celebramos, no dia 14 de fevereiro, o último domingo da primeira fase do Tempo Comum; continuaremos depois de Pentecostes. Naquele dia, a Mãe Igreja nos chamou a refletir sobre Jesus que nos cura de nossas doenças e nos liberta de todo mal. De fato, no Pai Nosso, rezamos todos os dias: livrai-nos do mal; há aqueles que gostam de dizer: livrai-nos de todo mal.

Estamos lendo, neste ano de 2021, no Tempo Comum, o evangelho de São Marcos, o menor, o mais antigo dos textos dos sinóticos, mas o mais denso. Vejamos que já há cinco domingos estamos lendo o capítulo primeiro e já passamos por sete passos, incluindo o episódio do 6º Domingo do Tempo Comum. A cura do leproso traz alguns elementos muito importantes para a nossa fé. 

Antes, vejamos qual a situação dos leprosos naquela época: a doença da lepra era a mais temida entre todos os males físicos. Nenhuma outra enfermidade era tratada na lei com tanto rigor, dado o perigo de seu contágio, pois era tida como incurável. O livro do Levítico diz assim: “o homem atingido por este mal andará com as vestes rasgadas, os cabelos em desordem e barba coberta, gritando: impuro; e sendo impuro deve ficar isolado e morar fora do acampamento” (cf. Lv 13,45-46).

Era uma lei religiosa que consta na Bíblia até hoje, não para ser praticada, mas para que sirva de registro histórico. Porém, o leproso, cheio de confiança em Cristo, num ímpeto de fé e esperança, rompe aquela lei, ajoelha-se diante de d’Ele e faz uma oração: “Se queres tens o poder de curar-me” (cf. Mc 1,40). Sua oração era uma profissão de fé, pois os judeus sabiam que só Deus pode curar a lepra. Ele, portanto, manifesta sua fé na divindade de Cristo.

Se o leproso superou, por angústia e extrema necessidade, a norma legal, Jesus, por caridade e amor, foi além. Se era proibido aproximar-se dos leprosos, Cristo toca com Sua mão em seu corpo cheio de chagas e a cura sem demora. Observemos que Jesus não só curou da terrível doença aquele homem que lhe suplicara com tanta expectativa, mas reconstruiu sua vida. Manda-o ao sacerdote para que tivesse agora autorizada licença de andar livremente pelas ruas e frequentar com liberdade as celebrações nas sinagogas. Volta a ser uma pessoa normal e, imaginemos, com que alívio agora passou a viver, pois antes não poderia imaginar-se curado; já se considerava condenado a viver naquela situação horrível para sempre.

A Mãe Igreja sempre ensinou que a lepra, da qual várias pessoas foram misericordiosamente curadas por Jesus, é também imagem do pecado que pode destruir uma vida humana. O pecado exclui o pecador da vida normal da Igreja e, dependendo da gravidade, pode levar à excomunhão. E aqueles que optam pelo pecado e recusam a misericórdia de Deus se excluem eternamente na condenação eterna, que chamamos de inferno.

Somente Deus pode nos libertar das consequências do pecado e Ele o faz, por misericórdia, enviando seu Divino Filho que, morrendo na cruz, nos lava e nos purifica. Este ato salvífico da cruz continua sua perpétua força no Sacramento da Confissão, onde, mediante a súplica humilde do pecador, outra vez Jesus, pela mediação da Igreja, diz: “Eu quero; fique curado”. Além disso, o olhar compassivo de Jesus para aquele doente, marginalizado, excluído, nos dá o exemplo de caridade; pois somente quem age por amor, sobretudo com os que mais sofrem, podem ser chamados de Seus discípulos. 

Aqueles que conhecem a Cristo e o amam verdadeiramente são capazes assimilar a misericórdia própria d’Ele, de imitá-Lo neste gesto amoroso e, esquecendo-se de si mesmos, vendo o cruel estado do irmão enfermo, também se aproximam, são capazes de abraçá-lo, para que não sinta a crueldade da exclusão por repugnância. Neste tempo de pandemia e de isolamento social, devemos refletir sobre a nossa caridade, nossa solidariedade para com os doentes, para com seus familiares e para com os profissionais da saúde.

Preparemo-nos para iniciarmos bem a Quaresma, tempo de purificação e de caridade.  O Papa Francisco escreveu uma linda e profunda mensagem para nos ajudar a vivenciar este tempo forte de nossa fé. Nele, nos incentiva a contemplar em nossos dias a oração, a penitência e a esmola, ou seja, a caridade de forma ainda mais intensa do que fazemos sempre.

Por fim, recordemos que estamos celebrando o Ano de São José e em nossa Arquidiocese caminhado para o centenário diocesano. Movidos pelo amor de Cristo que nos purifica e nos reconstrói a cada dia com seu amor, rezemos juntos: São José, sede nosso pai amoroso, nosso guia sinodal rumo ao centenário diocesano. Amém.

Dom Gil Antônio Moreira
Arcebispo Metropolitano de Juiz de Fora

 

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