A luz de Deus na escuridão da pandemia

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A celebração do Domingo da Alegria, em latim, Domingo Laetare, marca exatamente o centro da Quaresma; já caminhamos 20 dias e daqui a 20 dias estaremos celebrando a Páscoa. Nosso coração, marcado pela penumbra da penitência, do jejum, da abstinência, se volta agora para frente e já vislumbra a festa da Páscoa com suas claridades animadoras.

Mas como podemos celebrar alegrias na situação em que nos encontramos no Brasil e no mundo, com esta terrível pandemia que persiste e desafia as nossas esperanças? Chegou a vacina tão esperada, mas ao mesmo tempo surgiram novas variantes, com cepas que parecem mais fortes que a primeira, com contágio mais rápido, com poder letal mais forte, atingindo jovens e até crianças?! Como não ter receio de que outras variações possam vir e nos causar mais perigo ainda?! Já não temos mais certeza de nada, nem de quando a pandemia vai acabar de todo e quanto tempo ainda durará! Até quando, meu Deus, irá esta situação de incertezas e perigos?

Vem em nosso socorro o longo e profundo diálogo de Jesus com Nicodemos, registrado no capítulo 3 de São João. Nicodemos era um homem importante, chefe dos judeus, sábio e inteligente, que procurou Jesus à noite para uma conversa. Suas palavras são sinceras e ele não tem nenhum interesse de colocar Jesus em dificuldade, como aconteceu em outras vezes, em que os fariseus queriam armar ciladas para Ele. Nicodemos dialoga com o Senhor expondo sua sincera admiração pela pregação e pelos Seus atos e ouve um dos mais belos discursos em estilo coloquial. Jesus lhe havia dito: é preciso nascer de novo […], nascer do Espírito, nascer do alto (cf. Jo 3,7-8).

Nicodemos foi entendendo o que Jesus dizia e aceitando o que lhe ia caindo no coração. Jesus lhe fala da luz que deve ser recebida. Era noite e o Senhor lhe anuncia o dia. A luz veio ao mundo, mas as pessoas amaram mais as trevas que a luz, porque suas obras eram más… (cf. Jo 3,19). Jesus já lhe havia anunciado antes que Deus amou tanto o mundo que enviou seu Filho único, para que não pereça todo o que nele crê, mas tenha a vida eternaDeus enviou seu filho ao mundo não para condenar o mundo, mas para que mundo seja salvo por ele (Jo 3,16-17).

A palavra mundo, aqui, pode ser traduzida como humanidade, comunidade das pessoas humanas. Jesus deu, assim, a certeza do amor de Deus que nunca desiste de nós, mas nos quer salvar a todo custo. Deus não quer a morte do pecador, mas que se converta e viva (Ezequiel 18,23). Mas a salvação precisa ser aceita, abraçada, acolhida. Por isso Jesus diz a Nicodemos: Quem não crer já está condenado… (cf. Jo 3,18).

No mesmo sentido, São Paulo escreve aos efésios recordando que Deus é rico em misericórdia (Ef 2, 4). Para aqueles que se abrem a Cristo, não recusam a sua luz, a graça de Deus é garantida. Somos, na verdade, salvos de graça, pois Deus nos ama e espera de nós que nos abramos à sua misericórdia. 

Neste prisma, o Domingo da Alegria nos enche de esperança. É tempo de revisão de costumes, tempo de conversão sincera, tempo de nos aproximarmos de Cristo como luz que pode iluminar-nos nestes tempos de escuridão em que a pandemia vai nos imergindo e desafiando. Como afirmou Jesus a Nicodemos, a serpente levantada no deserto era capaz de curar os que para ela olhavam, ou seja, aqueles que acreditavam no sinal de Deus. Também nós temos para quem olhar.

Contemplemos o crucifixo, a Jesus pregado na cruz, com olhar de confiança, pois Deus também olha por nós. Seu olhar é de amor, é de misericórdia, é de bondade. Isso nos enche de uma alegria interior que ninguém pode tirar e não há pandemia, nem vírus capaz de destruir.

Dom Gil Antônio Moreira
Arcebispo Metropolitano de Juiz de Fora

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