Transfiguração no Itinerário Quaresmal

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Desde o ano de 2010, os jovens da Arquidiocese de Juiz de Fora, em seu itinerário rumo à Pascoa, fazem sua Via-Sacra no Segundo Domingo da Quaresma, subindo o Morro do Cristo, no Centro de Juiz de Fora. No presente ano, nesta 12ª versão, tal celebração foi realizada em formato virtual, dadas as rigorosas restrições provocadas pela Covid-19.

Mediante tal desafio, a juventude juiz-forana não deixou passar livre esta esperada data. Com a costumeira animação e vibração própria dos jovens, realizou este evento no interior da Catedral Metropolitana, trazendo a Cruz da Juventude, recebida na JMJ (Jornada Mundial da Juventude) de 2013, no Rio de Janeiro, presidida pelo Papa Francisco. Trouxeram também as 15 cruzes representativas das 15 estações da Via-Sacra, recordando e revivenciando os momentos mais fortes da Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor.

A razão de realizar tal Via-Sacra Juvenil no Segundo Domingo da Quaresma é a contemplação da Transfiguração de Cristo no alto de uma montanha, narrada todos os anos nesta liturgia. O episódio é mencionado pelos três evangelhos sinóticos: Mateus, Marcos e Lucas. A versão deste ano é de Marcos 9, 2-10.

As montanhas têm, nas Sagradas Escrituras, um sentido forte tanto no Antigo Testamento como no Novo Testamento. Para quem crê em Deus há um impulso natural de procurar os lugares altos, deixando as coisas corriqueiras da vida na planície para buscar o extraordinário, abandonando as coisas relativas e passageiras para ir ao encontro do absoluto, do duradouro, do eterno. Olhar para o alto é sinal de esperança, enquanto olhar para baixo é, em geral, sinal de desânimo e tristeza.

A transfiguração de Cristo se deu, provavelmente, no alto do Monte Tabor, o mais alto da região próxima à Galileia. Ali, Jesus se transformou diante dos olhos assustados de Pedro, Tiago e João. Suas roupas ficaram brilhantes, tão brancas que nenhuma lavadeira na Terra conseguiria alvejá-las. Apareceram-lhes Moisés e Elias, que representavam a Lei e os Profetas. Durante a transfiguração, ouviu-se uma voz: “Este é meu Filho amado; escutai o que ele diz” (cf. Mc 9,7).

Recordemos que estamos no itinerário quaresmal. Este, como os Retiros Espirituais que fazemos, são maneiras de deixarmos a planície de nossas preocupações cotidianas para subirmos em espírito para um lugar elevado e praticarmos com mais intensidade, atenção e amor a nossa vida de fé, sobretudo a oração, a penitência e a caridade, em vista de celebrarmos mais dignamente a Páscoa da Ressurreição a cada ano.

Muitas coisas então na planície de nossas vidas atualmente, como a pandemia com tantos sofrimentos, mortes, preocupações, incertezas, exigências naturais. Também a violência contra homens, mulheres, jovens e crianças abortadas nos desafiam a lutar pela paz, pela concórdia e pelo perdão e, sobretudo, pela construção de uma sociedade justa e fraterna cujos alicerces são o amor e a paz, respeitando a vida desde a fecundação até seu fim natural.

Neste itinerário quaresmal, e diante destes desafios hodiernos, somos, mais uma vez, chamados à oração e à caridade profundas, e à confiança total em Deus, ao ouvir a voz do Pai que diz: “Este é meu Filho amado; escutai o que ele diz”. A palavra mais intensa da pregação de Jesus foi esta: “Amai-vos uns aos outros” (Cf. Jo 15,12), amor concreto que se traduz na solidariedade com os sofredores. Conforta o coração humano a palavra de São Paulo aos Romanos: “Se Deus é por nós, quem será contra nós? Se não poupou seu próprio Filho, mas o entregou por todos nós, como não nos daria tudo junto com ele?” (Cf. Rm 8,31b-32).

Recordemos, afinal, que estamos em Sínodo Arquidiocesano, com o lema “Proclamai o Evangelho pelas ruas e sobre os telhados” (Cf. Mt 10,27); que estamos em caminhada rumo ao centenário diocesano, guiados pelo exemplo forte de São José neste Ano Josefino instituído pelo Papa Francisco; que estamos fortes e firmes no itinerário quaresmal rumo à Páscoa. Deixemos que Deus nos transfigure a cada dia desta caminhada de fé até que possamos gozar da vida eterna para a qual fomos criados.

Dom Gil Antônio Moreira
Arcebispo Metropolitano de Juiz de Fora

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