Em sua mensagem para o X Dia Mundial dos Pobres, que será celebrada em 15 de novembro de 2026, o papa Leão XIV disse que “a Igreja, pela sua própria natureza, é chamada a ser pobre e refúgio para os pobres”.
A mensagem, divulgada pela Sala de Imprensa da Santa Sé hoje (14), tem como título “O Senhor é o refúgio do pobre”, tirado do Salmo 14,6. “As palavras do salmista sugerem o caminho que somos chamados a percorrer na perspectiva do X Dia Mundial dos Pobres”, disse o papa. Ele destacou que, “mais uma vez, é necessário recorrer à Palavra de Deus para compreender a importância que os pobres têm na vida da Igreja”.
O Dia Mundial dos Pobres foi instituída pelo papa Francisco em 20 de novembro de 2016, ao concluir o Jubileu da Misericórdia. Naquele dia, em sua carta apostólica Misericordia et misera, Francisco disse que essa data deve ser celebrada em toda a Igreja no XXXIII Domingo do Tempo Comum.
“Será a mais digna preparação para bem viver a solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo Rei do Universo, que Se identificou com os mais pequenos e os pobres e nos há de julgar sobre as obras de misericórdia”, disse Francisco, referindo-se à solenidade que será celebrada em 2026, no domingo, 22 de novembro, e com a qual se encerra o Ano Litúrgico da Igreja.
‘Uma injustiça social que brota de uma corrupção arrogante’
Em sua mensagem, Leão XIV alerta que “nota-se, infelizmente, como também nos nossos dias é difundida uma injustiça social que brota duma corrupção arrogante, tão deplorável quanto discriminatória”.
“A perda do sentido de transcendência na vida quotidiana já não é tanto uma negação teórica da existência de Deus; antes, manifesta-se em não considerar a sua bondade e misericórdia na construção da justiça pessoal e social”, disse.
O papa afirmou que “os primeiros a sofrer suas consequências são os pobres”, cujo número, advertiu, “não por acaso, está a aumentar em muitas sociedades”.
Leão XIV lamentou que “a ausência de Deus faz com que as pessoas já não se coloquem umas ao lado das outras, num clima de respeito mútuo, mas sim umas acima das outras, num clima de domínio e opressão”.
O ambiente digital aumenta a indiferença para com os pobres
Depois alertar que “o clamor dos pobres por justiça é hoje abafado por múltiplas técnicas, cada vez mais dissimuladas”, Leão XIV denunciou que “o ambiente digital radicaliza o preconceito contra eles e aumenta a cortina de indiferença que envolve as suas causas”.
“Ao pobre não resta senão clamar por Deus e fazer chegar até Ele o seu lamento, com a certeza de ser ouvido, porque Deus é fiel e rico em misericórdia”, disse. O papa destacou que “os oprimidos, humilhados e indefesos crescem também hoje na certeza de que devem entregar-se a Deus, cheios de confiança e expectativa”.
“Nesta entrega total, renasce o sentido da própria dignidade, reconhecem-se irmãs e irmãos com quem organizar os próprios sonhos, a esperança torna-se silenciosamente realidade. Refugiar-se em Deus equivale a encontrar a proteção verdadeira e segura, aquela que os poderosos não podem garantir e preferem negar”, disse ele.
O papa destacou que o pobre “sabe reconhecer melhor do que os outros o essencial, porque vive do essencial”. “emelhante a Cristo mais do que qualquer outro, reconhece Deus como seu refúgio, mesmo quando as circunstâncias parecem contradizê-lo, e está cheio de esperança na justiça divina, que não tardará a manifestar-se”.
Chamados ‘a sermos refúgio para os pobres’
Leão XIV disse que, “em Cristo, portanto, também nós somos chamados a tornarmo-nos pobres e a sermos refúgio para os pobres”.
“A comunidade cristã não pode permanecer insensível perante tantos que hoje se encontram à porta e permanecem invisíveis para aqueles que estão fechados entre as suas próprias paredes”, disse e destacou que “a Igreja, pela sua própria natureza, é chamada a ser pobre e refúgio para os pobres”.
“Surgem inevitavelmente algumas perguntas que, neste X Dia Mundial dos Pobres, precisamos urgentemente de fazer ressoar na nossa mente e no nosso coração”, disse o papa. “Somos sinal de um Deus que é refúgio para os pobres? Temos consciência da nossa pobreza e preferimo-la à riqueza injusta? Chegamos onde se encontram os pobres, experimentando a sua marginalidade? Ouvimos os seus pensamentos e partilhamos as suas expectativas? Pronunciamos os seus nomes com ternura divina? A nossa caridade reaviva e sustenta neles o desejo de justiça e redenção?”.
“Estas e muitas outras questões obrigam-nos a um sério exame de consciência, para verificar o quanto ainda somos chamados a ser em favor dos pobres e da sua libertação”, disse.
Leão XIV recordou “o oitavo centenário da morte de são Francisco de Assis” que, segundo ele, “convida-nos a recordar como, ao chegar a Roma em peregrinação ao túmulo do apóstolo Pedro, ele se compadeceu dos mendigos”. “Queremos testemunhar que é possível, também hoje, experimentar a mesma alegria ao colocar-se no lugar dos pobres e ao ouvi-los, em vez de apenas falar sobre eles”, disse o papa.
“Quem tem Deus como refúgio é livre para fazer escolhas proféticas, que testemunham como tudo pode ser repensado a partir de baixo, na humildade e na fraternidade que, por si sós, curam um mundo ferido pela prepotência”, disse.