A Páscoa nos põe de pé

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Depois de celebrar com Cristo a penitência da Quaresma, Sua paixão e morte na Semana Santa, recordaremos, nos próximos 50 dias, a Páscoa da Ressurreição. O Senhor não permaneceu na morte, mas ressuscitou, ressuscitou de verdade, não morre mais. Com Ele todo o orbe se alegra, se refaz.

É a vida criada por Deus que rejubilou inteira na hora em que o inesperado se realizou, o inédito se compôs, o que parecia impossível se tornou visível e palpável. Aquela noite santa apontou para a aurora antes mesmo que o sol brilhasse, a luz espantasse a noite, a escuridão desse lugar às claridades que enchem de tranquilidade, paz e bem-estar todos os corações.

A beleza da liturgia da Vigília Pascal trouxe para o altar, para o ambiente sagrado, todas as forças naturais: o fogo, a água, o ar e a terra. Entre os elementos que compuseram a festa pascal, destaca-se a água.

Diz o livro do Gêneses que, “No princípio, Deus criou o céu e a terra. A terra estava deserta e vazia, as trevas cobriam o abismo e o Espírito de Deus pairava sobre as águas” (Gn 1, 1-2). No livro do Êxodo, que narra a libertação do povo hebreu da escravidão do Egito, encontramos o episódio da travessia do Mar Vermelho, onde as águas volumosas se abriram para salvar o povo da perseguição do Faraó. As mesmas águas serviram de proteção para os peregrinos, quando os inimigos, embrenhando-se no mesmo caminho aberto, foram submergidos por elas (Cf. Ex 14, 15-30). O episódio inesperado, mas realizado, encheu o coração de Moisés e de Maria, sua irmã, que compuseram um cântico que todos cantaram “Cantai ao Senhor Deus, pois estupenda foi sua vitória, cavalo e cavaleiro ele precipitou no mar. Minha força e meu canto é o Senhor; Ele foi para mim a salvação” (Ex 15, 1-2). Quando, no deserto de Rafidim, o povo teve sede, o Senhor mandou e Moisés feriu a rocha duas vezes e jorrou água em abundância que o povo pode beber e se reanimar (Cf. Ex 17, 6 e Num 20, 11).

Quando Jesus, cansado da viagem, sob o sol de meio-dia, sentou-se à beira do Poço de Jacó, disse à Samaritana: “Se conhecesses o dom de Deus e soubesses quem é que te diz: dá-me de beber, tu mesma lhe pediria e ele te daria água viva” (Jo 4, 10). Vemos que Jesus, aqui, já emprega sentido simbólico ao elemento natural que é a água. O Dom de Deus é o Espírito Santo, é a graça divina, é algo sobrenatural que vem em socorro da fragilidade humana.

No deserto da Judeia, João batizava com água. Era um batismo de penitência, um convite à conversão, um banho de regeneração. Na última ceia, Jesus usa a água para lavar os pés dos discípulos e diz a Pedro: “Se eu não lhe lavar os pés, não terás parte comigo”. Ao que Pedro, receoso de se ver separado do Senhor, mais que depressa responde: “Senhor, então não me lave apenas os pés, mas as mãos e a cabeça” (Jo 13, 8-9).

No alto da cruz, quando o Senhor se entrega totalmente por nós, diz São João, que ali estava presente, que “Um soldado golpeou -lhe o lado com uma lança e imediatamente saiu sangue e água” (Jo 19, 33). A Igreja sempre viu neste fato, acontecido no Gólgota, a imagem da Eucaristia no elemento sangue e o Batismo no elemento água. São João Crisóstomo, no século 4, ensinava: “O evangelho lembra que, quando Cristo estava morto, mas ainda pendendo da Cruz, um soldado veio e transpassou o seu lado com uma lança e, imediatamente, saíram sangue e água. Então a água foi um símbolo do batismo, e o sangue, da santa Eucaristia. O soldado transpassou o lado do Senhor, rompeu o muro do templo sagrado, e eu encontrei o tesouro e apossei-me dele”. Esses dois sacramentos constituem a Igreja.

Por fim, Jesus Ressuscitado, antes de voltar para o seio da Trindade, no momento da Ascensão, ordena aos discípulos: “Ide por todo o mundo; fazei discípulos meus em todas as nações, e batizai-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-lhes a observar tudo o que vos ensinei. Eis que estarei conosco todos os dias até o fim dos tempos” (Mt 28, 19-20).

Neste tempo difícil de pandemia em que estamos vivendo, recobremos o ânimo, pois a Páscoa nos põe de pé. Nossa condição de batizados, de vivos em Cristo, lavados e dessedentados pela água regeneradora, ressuscitados que somos e que seremos em plenitude depois de nossa pascoa definitiva, ou seja, de nossa morte, peçamos ao Pai que nos dê o fim da pandemia, mas peçamos também força e confiança enquanto ela durar, certos de que o Senhor esteve conosco, continua conosco e continuará conosco até o fim os tempos.

Dom Gil Antônio Moreira
Arcebispo Metropolitano

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