A Páscoa no ano em que o mundo parou

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Nesta situação tão especial do mundo hodierno, marcado pela pandemia do novo coronavírus, a celebração da Páscoa representa um hálito de esperança, uma força que anima, sentimento que traz paz, no meio das lutas e apreensões dos médicos, das autoridades públicas e de toda a população.

Depois da paixão e morte de Jesus, sobre as quais meditamos e celebramos nos 40 dias da Quaresma e na Semana Santa, de forma on-line, ao chegar a Vigília Pascal pudemos proclamar jubilosos, com as palavras de São Paulo aos Romanos: “Cristo Ressuscitou dos mortos e não morre mais; a morte já não tem poder sobre ele” (Rom 6, 3-11).

O Senhor apareceu ressuscitado várias vezes a seus discípulos e discípulas: comeu com eles, na reunião daquele primeiro domingo, no cenáculo (Lc 24, 36-49; Jo 20, 19-23), se alimentou de peixe, à beira do lago de Genesaré (Jo 21, 1- 13), partiu o pão aos discípulos de Emaús (Lc 24, 13-35) e foi visto em outras ocasiões. É o próprio Mateus, autor do evangelho lido no Sábado Santo, que, por fim, traduzirá a última palavra de Jesus Ressuscitado aos discípulos, após todas as aparições: “Eis que estarei convosco até o fim dos tempos” (Mt 28, 20).

Nós cremos e podemos nos alegrar com a ressurreição do Senhor, pois nela estamos inseridos pelo nosso Batismo, como ouvimos de São Paulo na Carta aos Romanos: “Pelo Batismo, na sua morte, fomos sepultados com Ele, para que, como Cristo ressuscitou dos mortos pela glória do Pai, assim também nós levemos uma vida nova” (Rom 6,4). Isto nos dá a certeza de que, pelo Batismo, não somos apenas purificados de nossos pecados, nem apenas passamos a pertencer à Igreja, mas também, por ele, nos tornamos coparticipantes de Seus sofrimentos e de Sua ressurreição. As três imersões, e três emersões, simbolizadas também no Batismo por intenção, representam esta realidade correspondente à escuridão dos sofrimentos e à invencível luz da vida que ressuscita, pela força de Deus que nos criou e por Seu Filho, que nos salvou.

Alimentados pela Eucaristia e pela Palavra, somos sempre renovados e recobramos nova vida, até que um dia sejamos acolhidos por Ele no banquete da eternidade, onde o perigo, a incerteza, a dor, a tristeza e todas as preocupações desaparecerão para dar lugar à alegria de viver, livres e felizes, para sempre.

Os fiéis que participaram da Semana Santa em suas casas, neste ano de isolamento social, puderam apenas fazer sua comunhão espiritual e foram privados, pelas circunstâncias, de receberem a Sagrada Eucaristia de forma sacramental. Aguardando, avidamente, o momento de irem à igreja para Comungar o Corpo de Cristo, conviverem com os irmãos na comunidade e fazerem a sua Páscoa de forma completa, os cristãos rezaram, dos santuários de seus lares, pedindo o fim da pandemia, a volta à normalidade das relações humanas, porém purificada, renovada, convertida.

Imerso nos sentimentos do Senhor, desejei ardentemente celebrar esta Páscoa em união espiritual, sobretudo com os médicos e médicas, enfermeiros e enfermeiras, e ainda com todos os demais profissionais da saúde. Penso nos funcionários dos laboratórios, nos que fazem a limpeza dos hospitais, nos que cuidam do lixo, nos que transportam enfermos e tantos outros que estão se desdobrando, se dedicando para salvar vidas neste momento pandêmico e, muitas vezes, arriscando as suas próprias em favor da subsistência dos demais. Eles participam, de alguma forma, da força renovadora que vem de Jesus Ressuscitado, para vencer o mal e a morte.

Que de Cristo venham a luz e as graças para que logo se descubra o medicamento certo para o tratamento e a vacina própria para a prevenção. Páscoa é passagem para uma vida nova.

Aos médicos e demais servidores da saúde, dou meu abraço virtual, dizendo-lhes: força e confiança. Também a você, leitor, desejo, de coração, uma feliz e santa Páscoa com os seus familiares. Tenhamos todos saúde, força para o trabalho e paz. Podemos, por ora, juntos proclamar: tudo passará e então nos abraçaremos e, plenamente juntos, celebraremos as alegrias pascais. Aí repetiremos, com mais ardor e cheios de festa: Jesus Ressuscitou! A vida venceu a morte! Fomos salvos para sempre!

Dom Gil Antônio Moreira
Arcebispo Metropolitano de Juiz de Fora

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