A Páscoa de Minha Mãe

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Era por volta de 16h, do dia 29 de agosto último, quando minha mãe, à mesa do café da tarde, serenamente partiu, sem gemidos, sem angústias, sem tristeza. Estamos convencidos de que, da mesa de sua casa, foi levada para o banquete da eternidade que Deus preparou para todos que O amam. Envoltos no manto caloroso do amor de Deus, iluminados pelas claridades da fé na ressurreição, fomos transidos pelo inevitável gladio da dor e da tristeza que a ausência da mãe causa no coração dos filhos. Somos oito.

Ao mesmo tempo, estamos imensamente agradecidos e encantados com Deus pelo presente que nos deu de ter mãe tão bondosa e exemplar, que nos deixa legado moral e espiritual tão elevado. Como verdadeira monja em família, era mulher de oração, do silêncio, de Eucaristia diária, do Rosário cotidiano, de amor a Deus e à Igreja, batalhadora incansável em favor dos outros, sem nunca pensar em si mesma. Ao momento de seu passamento, trazia sobre o peito seu escapulário carmelitano que nunca deixou de usar, rezando diariamente o Ofício Parvo do Carmo, após a oração do Terço de Nossa Senhora a quem devotava encantadora afeição. A espiritualidade do Monte Carmelo já estava misteriosamente impressa em seu nome de batismo: Maria Tereza. Até a sua morte, presidiu a OVS (Obras das Vocações Sacerdotais) na paróquia, após muitos anos neste ministério, liderando um sodalício de cerca de 50 senhoras que com ela trabalhavam incansavelmente pelas vocações. Foi membro do Apostolado da Oração e Consócia Vicentina durante boa parte de sua vida, cuidando amorosamente dos pobres e sofredores.

Recebia em sua casa, todo dia 29 de cada mês, o ícone de Nossa Senhora, Mãe Peregrina, quando promovia momento forte de oração junto aos seus. Foi num dia desses, 29 de agosto, mês vocacional, numa sexta-feira, dia particularmente dedicado ao Coração de Jesus, que ela partiu para o céu.

Com a falta da visão, passou por muitos sofrimentos, pois não podia mais ter tantas atividades como antes, nem mesmo para os seus bonitos trabalhos artesanais que fazia, em geral, para fins caritativos. Aproveitava agora o tempo para rezar mais e dar carinhosa atenção a todos que a visitavam. Eram, ultimamente, vários rosários rezados a cada dia. Estou convencido de que Nosso Senhor lhe privou da vista na terra para que a luz do eterno lar lhe encantasse ainda mais.

Viveu para Deus, para a Igreja e para a família. Para criar seus filhos, ao lado de meu saudoso pai, teve que passar por momentos difíceis, vividos no silencio e na oração, inclusive com provações financeiras. Porém conseguiram os dois formar a todos, e a todos encaminhar para situação profissional melhor que a deles e deixá-los todos católicos fervorosos. Como mulher de Deus, se mostrava sempre agradecida por lhe ter dado dois filhos sacerdotes, e era feliz por ver um neto a caminho do altar, no Seminário da Arquidiocese de Belo Horizonte. Pedia a Deus, se fosse de sua santa vontade, a graça de assistir sua ordenação, porém o Eterno e Sumo Sacerdote a quis na festa do céu, antes que chegasse aquele dia na terra. De lá o verá!

Somos muito gratos a todos quantos estão se fazendo presentes junto a nós nesta hora de dor, mas também de celebração pascal, certos da ressurreição, pois não temos aqui cidade permanente, mas vamos firmes em busca da futura.

Obrigado, Senhor pela mãe que nos destes e que agora recebestes em seu santuário de eterna luz, para que um dia a encontremos entre os coros celestes, com Maria, os Santos e os Anjos, na festa da vida que nunca mais acaba, a nossa Páscoa definitiva e feliz.

Dom Gil Antônio Moreira
Arcebispo Metropolitano de Juiz de Fora

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