Um jovem santo no meio urbano

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Estamos, em pleno século XXI – repleto de ideias tecnicistas, como lembrou o Papa Bento XVI, ou de certo indiferentismo ante a vida de fé –, diante de Guido Schäffer, um jovem médico, seminarista e surfista que, sem deixar de ser um rapaz normal como outros de sua idade, decidiu entregar-se totalmente a Deus.

Brasileiro, carioca de Copacabana, após ter exercido a Medicina como grande obra de misericórdia para todos, tendo em conta especialmente os mais necessitados, optou pela busca do sacerdócio ministerial como aluno brilhante intelectualmente e profundamente piedoso. Seu sonho de se doar totalmente a Deus enquanto padre foi, no entanto, interrompido por um acidente enquanto surfava na Praia do Recreio dos Bandeirantes, posto 11, no dia 1º de maio de 2009.

Ao término da Missa de corpo presente, todavia, o Arcebispo de São Sebastião do Rio de Janeiro, hoje Cardeal, Dom Orani João Tempesta, O. Cist., colocou uma estola nas mãos de Guido, demonstrando, assim, que aquele jovem médico, seminarista e surfista estava, se não tivesse a vida colhida por aquela fatalidade, pronto para ser um grande sacerdote do Altíssimo na Cidade Maravilhosa.

Depois da morte de Guido, o jovem Nícolas, um dos amigos do médico seminarista, revoltou-se contra Deus pelo ocorrido, sem entender, por ora, que os caminhos do Senhor não são os nossos (cf. Is 55,8). Além dessa angústia, Nícolas estava também com um problema de saúde: tivera uma queda brusca no número de plaquetas e corria risco de vida, uma vez que, tendo já superado um câncer, precisava ter o número de plaquetas sempre monitorado.

Ao saber de sua crise, Eduardo, amigo comum que fizera sua despedida de solteiro no dia em que Guido faleceu, lhe telefonou e disse que rezasse a seguinte oração: “Ave-Maria, Mãe do Puro Amor, dá-nos a graça da obediência e da docilidade à Palavra de Deus, para que, repletos de sabedoria, possamos irradiar a luz de Cristo em nossos corações. Amém”.

Em pouco tempo, depois de fazer o que o amigo lhe sugerira, Nícolas estava totalmente bom. Além deste caso, logo após a morte de Guido e ainda hoje, as pessoas passaram a recorrer ao Servo de Deus pedindo orações e relíquias, bem como relatam graças recebidas pela intercessão do jovem médico, seminarista e surfista (cf. Guido, mensageiro do Espírito Santo, p. 267-268).

Dom Justino Almeida Bueno, OSB, autor de uma das biografias do Servo de Deus – “Guido Schäffer: apóstolo da palavra e da paz” (Juiz de Fora: Subiaco, 2013, 2ª ed. Muito recomendada) -, deixa no ar interessante questão sobre uma possível experiência mística vivida pelo jovem, assim como ocorreu com os grandes santos da Igreja. O bispo baseia-se em relatos feitos sobre a vida de Guido por quem conviveu de perto com ele, suas anotações espirituais e a vida de profunda oração por meio de íntimos colóquios com o Pai.

O Catecismo da Igreja Católica é bastante objetivo, completo e sintético ao tratar da mística (que, infelizmente, alguns reduzem apenas a fenômenos extraordinários nem sempre realmente místicos) como a união cada vez mais íntima com Deus, especialmente por meio da oração pública e oficial da Igreja, sobretudo da Santa Missa e da Liturgia das Horas, a prática da Confissão sacramental frequente e a oração pessoal que cada um escolhe, tendo sempre destaque a Lectio Divina (leitura orante da Palavra de Deus), o terço ou outra forma de rezar que a pessoa escolha, sempre inspirada pelo Espírito Santo. Isso tudo se traduz, evidentemente, nos atos de caridade misericordiosa para com o próximo.

Ora, lendo a vida de Guido Schäffer notamos nele a prática de tudo isso que foi relatado no parágrafo anterior. Além disso, é provável que possam ter ocorrido, conforme quatro relatos de pessoas que conviveram de perto com ele, episódios em que o médico e seminarista “parecia um anjo todo envolto em luz” e que, durante suas pregações, sempre o “seu rosto se transfigurava”.

Os fenômenos místicos ocorrentes na Bíblia se repetem, ao longo da História da Igreja, na vida dos Santos de Deus já canonizados pela Igreja ou de almas piedosas. Aliás, por que Deus não terá atendido, de forma sensível, o que Guido Lhe pedia em oração: “Senhor, eu quero ser luz do mundo. Por onde eu caminhar, que a Vossa Face brilhe em mim, e assim, os homens Vos glorifiquem, ó Deus de amor e de bondade”? (Apóstolo da Palavra e da paz, p. 139).

*Resumo do artigo “Guido Schäffer: Médico, Seminarista, Surfista e Apóstolo de Nosso Tempo”,
revisado por
Ângela Isnard e Margarida Hulshof e disponível aqui

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