Comunicadores se reúnem para celebrar o 60º Dia Mundial das Comunicações Sociais

Neste domingo, 17 de maio, a Igreja Católica celebrou o 60º Dia Mundial das Comunicações Sociais, data instituída pelo Concílio Vaticano II e tradicionalmente comemorada no domingo da Solenidade da Ascensão do Senhor. Neste ano, a mensagem do Papa Leão XIV trouxe como tema “Preservar vozes e rostos humanos”, propondo uma profunda reflexão sobre os desafios éticos, humanos e espirituais da comunicação em tempos marcados pela inteligência artificial, pela desinformação e pela superficialidade das relações digitais.

Na Arquidiocese de Juiz de Fora, a celebração aconteceu de forma antecipada, na sexta-feira, 15 de maio, reunindo representantes dos veículos de comunicação do território arquidiocesano, integrantes da Rede Arquidiocesana de Comunicação, assessores, jornalistas, fotógrafos, radialistas, agentes da Pastoral da Comunicação e profissionais ligados à evangelização através dos meios de comunicação.

A programação teve início com a Santa Missa, às 19h, na Igreja da Glória, no Morro da Glória, presidida pelo pároco, Pe. Carlos Viol, C.Ss.R. Em seguida, os participantes viveram um momento cultural e de convivência fraterna na tradicional Cervejaria Hofbauer, conduzido pelo responsável pela cervejaria, Ir. Thaylor Bertoli, C.Ss.R.

Mais do que um encontro celebrativo, a ocasião tornou-se também um espaço de reflexão sobre o papel da comunicação na construção da verdade, da fraternidade e da dignidade humana.

“Preservar vozes e rostos humanos”

Em sua homilia, Pe. Viol aprofundou a mensagem proposta pelo Papa Leão XIV para o LX Dia Mundial das Comunicações Sociais. Partindo das leituras do dia, o sacerdote destacou os riscos de uma sociedade cada vez mais guiada pela “percepção da realidade” e não pela própria realidade.

“A mensagem do Papa é muito profunda. Preservar vozes e rostos humanos por uma razão muito simples: somos imagem e semelhança de Deus”, afirmou.

O sacerdote chamou atenção para a forma como os algoritmos, as redes sociais e os mecanismos de influência moldam comportamentos, opiniões e até mesmo percepções sociais. Segundo ele, muitas vezes a realidade concreta acaba sendo substituída por narrativas fabricadas e consumidas de maneira automática.

“Existe uma coisa chamada realidade e outra chamada percepção da realidade. E, hoje, essa diferença não é pequena. O modo como nós comunicamos e o modo como nós consumimos informação pode nos ajudar a transitar perigosamente numa ponte que, às vezes, não tem retorno”, refletiu.

Ir. Thaylor Bertoli, C.Ss.R. e Pe. Carlos Viol , C.Ss.R. / Foto: Guilherme Viana

Ao refletir sobre o universo digital contemporâneo, Pe. Viol também criticou a lógica da maximização dos lucros e o fenômeno dos influenciadores digitais que, segundo ele, muitas vezes recebem autoridade apenas pela audiência, sem compromisso com a verdade.

“Gente que não conhece quase nada falando de quase tudo, com uma autoridade que ninguém deu para essa pessoa, a não ser um negócio chamado audiência”, pontuou.

O sacerdote destacou ainda que, enquanto as pessoas consomem conteúdos nas plataformas digitais, também estão sendo constantemente observadas, analisadas e direcionadas pelos algoritmos. “Quanto mais determinado conteúdo a gente vê, mais a máquina entende aquilo e nos entrega apenas aquilo. E aí a percepção da realidade fica muito distante da realidade concreta”, explicou.

O compromisso com a verdade

Durante a homilia, Pe. Viol também alertou para os perigos da desinformação e da ausência de verificação das notícias, recordando o emblemático caso da chamada “Grávida de Taubaté”, que mobilizou o país há alguns anos por meio de uma história falsa amplamente divulgada.

“O documento do Papa fala da importância de checar as notícias. Hoje, a pressa de vender, a pressa de mobilizar e até de manipular faz com que muitas vezes não se faça a verificação”, destacou.

Ao dirigir-se especialmente aos comunicadores presentes, o sacerdote reforçou a responsabilidade ética daqueles que trabalham com informação e comunicação. “O que vai nascer da comunicação impacta a vida das pessoas. Por isso, ela exige paciência, responsabilidade e compromisso com aquilo que se fala e também com aquilo que se escolhe não mostrar”, reforçou.

Pe. Viol recordou ainda um trecho da mensagem do Papa Leão XIV, que insiste na necessidade de educar para o pensamento crítico e para o uso consciente das tecnologias. “Uma pessoa bem formada dificilmente se deixa enganar. E uma pessoa com espiritualidade também. Quem vai ao fundo das coisas da alma não vive vendido à superfície”, relembrou.

Ao concluir a reflexão, o sacerdote retomou a centralidade da pessoa humana na comunicação cristã. “Diante de Deus, nós somos seres humanos com voz e rosto. E Jesus é essa revelação tão bonita do Pai: Ele é a voz e o rosto de Deus na nossa vida”, completou.

Fraternidade e cultura no Convento da Glória

Após a celebração, os comunicadores participaram de uma visita guiada à Cervejaria Hofbauer, localizada no próprio Convento da Glória. O momento foi marcado pela partilha, pela convivência e pela valorização da história redentorista em Juiz de Fora.

Conhecida como a “cerveja do convento”, a Hofbauer é considerada um importante patrimônio cultural e turístico da cidade. Sua origem remonta ao final do século XIX, quando os missionários redentoristas holandeses chegaram ao Brasil trazendo consigo a tradição europeia da produção artesanal de cervejas.

Foto: Guilherme Viana

Durante a visita, Pe. Carlos Viol recordou a forte presença histórica dos redentoristas na cidade e destacou a importância cultural do complexo do Morro da Glória. “Essa é a primeira casa redentorista do Brasil. Aqui existe um patrimônio não apenas arquitetônico, mas também histórico, cultural e religioso muito importante para Juiz de Fora”, recordou.

O sacerdote também recordou a trajetória da congregação no território, desde a assistência aos imigrantes alemães até a atuação missionária que alcançava cidades vizinhas, como Santos Dumont.

Além disso, destacou a relevância da Biblioteca Redentorista, que atualmente reúne mais de 100 mil volumes e permanece aberta à comunidade como espaço de pesquisa, estudo e formação.

A tradição da “cerveja do convento”

Responsável pela Cervejaria Hofbauer, Ir. Thaylor Bertoli, C.Ss.R., apresentou aos participantes a história da produção artesanal mantida pelos redentoristas há mais de um século.

Segundo ele, os primeiros missionários chegaram ao Brasil em 1893, enviados para auxiliar nas colônias de imigrantes alemães da região. “Os redentoristas vieram da Holanda trazendo também essa tradição da produção de cerveja artesanal. Em 1894, começaram a produzir aqui a própria cerveja, inicialmente em pequenos caldeirões”, explicou.

A atual fábrica foi inaugurada em 1910, após a chegada dos equipamentos importados da Europa. O Irmão explicou que a cerveja era produzida inicialmente para consumo interno dos religiosos e também como complemento alimentar, especialmente durante períodos de jejum.

Ao longo das décadas, a tradição atravessou diferentes fases, até ser retomada em 2009 pelo saudoso Pe. Flávio Leonardo Santos Campos, C.Ss.R., responsável pela restauração da cervejaria e pela atualização das receitas.

Hoje, a Hofbauer mantém oito estilos próprios de cerveja artesanal e já acumula premiações nacionais e internacionais. “Quem vem aqui não bebe só cerveja. Bebe cultura também”, afirmou Ir. Thaylor.

O religioso destacou ainda que a cervejaria preserva não apenas uma tradição gastronômica, mas um importante patrimônio histórico da cidade. “Essa é a única fábrica construída no século XIX dentro de um convento ainda em funcionamento nas Américas”, complementou.

Comunicação que gera vida

Em sintonia com a mensagem do Papa Leão XIV, o encontro também reforçou a importância de uma comunicação comprometida com a verdade, a dignidade humana e a promoção da cultura do encontro.

Na mensagem para o 60º Dia Mundial das Comunicações Sociais, o Santo Padre alerta para os riscos da inteligência artificial e dos algoritmos que transformam pessoas em consumidores passivos e enfraquecem a capacidade crítica. “O desafio não é tecnológico, mas antropológico […] É necessário que o rosto e a voz voltem a dizer a pessoa”, afirma o Papa.

Ao final da noite, entre partilhas, memórias e convivência fraterna, os comunicadores saíram renovados na missão de comunicar não apenas informações, mas sobretudo humanidade, verdade e esperança.

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