Sínodo: instrumento de trabalho vai recolher o processo de discernimento da Igreja

Os trabalhos do Sínodo sobre a Sinodalidade na Sala Paulo VI, no Vaticano / Foto: Vatican Media

Decorrem até ao dia 13 de junho no Vaticano os trabalhos para a redação do documento para a segunda sessão da XVI Assembleia Geral do Sínodo dos Bispos.

Por uma Igreja sinodal em missão

O instrumento de trabalho (Instrumentum laboris) para a sessão que vai decorrer no próximo mês de outubro está a ser preparado por um grupo de cerca de vinte teólogos de todo o mundo.

O Relatório de Síntese da primeira sessão do Sínodo, que teve lugar no Vaticano em 2023, renovou o caminho de reflexão da Igreja iniciado em outubro de 2021 com o processo sinodal de discernimento aberto pelo Papa Francisco.

A Secretaria Geral do Sínodo pediu em dezembro de 2023 às dioceses de todo o mundo que aprofundassem esse mesmo Relatório de Síntese. Uma proposta com uma pergunta orientadora: “Como ser uma Igreja sinodal em missão?”

A Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) publicou em maio o relatório relativo à fase atual do Sínodo. O trabalho apresentado foi elaborado pela Equipa Sinodal da CEP da qual fazem parte os seguintes membros: José Eduardo Borges de Pinho, professor jubilado da Universidade Católica Portuguesa; Pedro Vaz Patto, presidente da Comissão Nacional Justiça e Paz; padre Eduardo Duque, professor da Universidade Católica Portuguesa; Carmo Rodeia, diretora do Serviço Diocesano para as Comunicações Sociais da Diocese de Angra; Anabela Sousa, diretora do Gabinete de Comunicação da CEP e o padre Manuel Barbosa, Secretário e porta-voz da CEP.

Clericalismo e resistência a mudanças

Ressalta do texto da CEP a preocupação de “continuar a fazer um discernimento sobre algumas questões doutrinais/pastorais que ainda causam dúvida, controvérsia ou desacordo na vida da Igreja”. São elas “a moral sexual, o celibato dos padres, o envolvimento de ex-padres casados, a possibilidade de ordenação de mulheres”.

A CEP assinala a existência de “resistência a mudanças” apontando a necessidade de se “continuar a refletir sobre os fatores que motivam a indiferença de muitos, as resistências às mudanças e os caminhos para as ir ultrapassando”.

Especial destaque para o reconhecimento de que a “a Igreja continua muito centrada no clero e em alguns leigos ‘clericalizados’. “O clericalismo, que, entre outros aspetos, se manifesta numa conceção de privilégio pessoal, num estilo de poder mundano e na recusa a prestar contas, é um obstáculo sério ao exercício de um ministério ordenado autêntico”, refere o relatório.

“O clericalismo atinge também os leigos com responsabilidades na vida da Igreja local e das comunidades. Combater a clericalização do laicado passa muito pela rotatividade nas lideranças e pelo desenvolvimento de metodologias de participação comunitária”, afirma o documento.

O papel da mulher na vida eclesial

No relatório da CEP é “reconhecida a importância de valorizar o papel das mulheres na vida eclesial e assegurar que possam participar nos processos de decisão”. Para essa participação ser concreta as mulheres devem assumir “papéis de liderança, especificamente nos conselhos pastorais e económicos”.

“Deve-se procurar a meta da paridade, reconhecendo explicitamente o contributo crucial das mulheres, não apenas na pastoral e nos ministérios, mas também na missão da Igreja junto das comunidades. Existe uma clara perceção de que a Igreja tem muito a ganhar com uma intervenção mais relevante das mulheres, de um modo particular, no anúncio e na meditação da Palavra de Deus, para uma verdadeira vivência sinodal e reconhecimento pleno dos seus dons e capacidades”, sustenta o documento.

Pedagogia sinodal na formação dos ministros ordenados

Segundo o relatório da CEP “para uma Igreja sinodal em missão urge reconhecer a necessidade de formação de todos os membros da Igreja. Caminhar juntos requer a capacidade de utilizar uma linguagem comum enriquecida pelos diferentes idiomas que decorrem da diversidade de dons, carismas, vocações e ministérios”.

Especial atenção “deve ser dada à formação dos ministros ordenados, incluindo nos planos formativos uma pedagogia sinodal de modo a fomentar capacidades de liderança e evitar mentalidades clericalizadas e clericalizantes. É urgente que a formação seja orientada para a corresponsabilidade”, refere o documento.

“A formação a desenvolver deve ser humana e cristãmente abrangente, com proximidade à vida real do povo de Deus, em vista do acompanhamento eficaz de pessoas e situações concretas, adequada à realidade do mundo e sintonizada com uma Igreja que procura receber e concretizar o Concílio, acompanhada pela presença feminina entre os formadores. Devem implementar-se formas de ajuda e encorajamento para a dinamização de um serviço eclesial mais fecundo, promovendo um acompanhamento humano e espiritual para valorização de cada pessoa e fortalecimento do seu ministério”, diz o relatório.

É sugerida “a valorização de diversos aspetos a ter em conta na formação: na área da psicologia e do trabalho em equipa”. O texto propõe trabalho com “comunidades mais desfavorecidas e periféricas”, como por exemplo, prisões, comunidades em que se cuide de doentes, comunidades de migrantes ou comunidades com minorias étnicas.

O relatório refere também o “acompanhamento do amadurecimento afetivo e sexual na formação dos ministros ordenados”.

Neste relatório é valorizada a família como sendo “centro da vida eclesial” e a sua relevância na dinâmica das comunidades. Destaque também para a importância da comunicação dentro e fora da Igreja. É proposta “uma Igreja mais relacional” onde sejam promovidos “os laços de encontro e comunicação entre paróquias”.

Fica aqui o essencial da informação contida no relatório da CEP nesta fase de 2024 do caminho sinodal da Igreja.

A segunda sessão da XVI Assembleia Geral do Sínodo dos bispos será em Roma no próximo mês de outubro.

Fonte: Site Vatican News

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