Sínodo da Santa Sé critica “efeitos devastadores” de terapias de conversão para pessoas com tendências homossexuais

A Secretaria do Sínodo da Santa Sé publicou ontem (5) um documento de trabalho com o testemunho de dois homens com tendências homossexuais que estão em relacionamentos sexuais ​​com outros homens, que falam, a partir de sua experiência, sobre tensões e feridas que marcaram sua vida de fé dentro da Igreja.

Esta é a primeira vez que um documento da Santa Sé dá voz a esse grupo. Um desses testemunhos vem de um homem com tendências homossexuais em Portugal, que diz ter sofrido uma profunda mágoa quando seu diretor espiritual sugeriu que ele poderia ter se casado com uma mulher para “encontrar a paz” e “colocar seus dons em prática”, minimizando a dimensão afetiva do casamento.

Segundo seu depoimento, a proposta foi sentida como uma ferida. “Era um modo de ferir outra pessoa, privá-la de ser amada plenamente, só para cumprir uma expectativa social”, disse o homem, segundo o documento. Ele diz que, a partir desse momento, começou a separar sua vida afetiva de seu relacionamento com Deus, excluindo-a de suas orações.

O documento tem também o depoimento de outro católico americano em união homossexual com um imigrante, e é atuante em sua paróquia. “Minha sexualidade não é uma perversão, um distúrbio ou um fardo; é uma dádiva de Deus”, diz o americano. “Tenho um casamento feliz, saudável e próspero como um católico assumidamente gay”.

Ambos os testemunhos estão escritos em inglês e podem ser consultados no site do sínodo como documentos separados do relatório final.

O protagonista fala sobre sua experiência com o apostolado americano Courage, ministério católico que oferece apoio a pessoas com atração pelo mesmo sexo que buscam viver em castidade conforme a doutrina da Igreja e que foi recebido pelo papa no Vaticano em 6 de fevereiro.

Segundo seu relato, ele entrou para esse grupo por conselho de um terapeuta que sugeriu que ele confrontasse sua “condição”.

“Tentei, sem sucesso, namorar uma mulher católica, mas nosso relacionamento terminou quando minha família enfrentou uma crise”, disse ele em seu depoimento publicado no documento. “Chegou a hora de ser honesto comigo mesmo, com Deus e com os outros”.

Condenação das terapias de conversão

O texto de 32 páginas, inicialmente publicado em italiano, é uma proposta não definitiva que sugere uma mudança metodológica em vez de doutrinária e será agora apresentado ao papa Leão XIV para ser avaliado por ele.

Com base nesses testemunhos, o grupo de trabalho do sínodo condena “os efeitos devastadores das terapias reparadoras destinadas a restaurar a heterossexualidade”, e as indicações “contraditórias” daqueles que aconselham o casamento “com uma mulher para encontrar a paz”.

O documento propõe uma abordagem baseada na escuta e no diálogo para abordar “questões doutrinárias, pastorais e éticas mais difíceis”, como as dos “crentes homossexuais”.

O documento parte do chamado “princípio de pastoralidade”, que diz que a mensagem cristã deve levar em conta pessoas concretas e suas experiências de vida, e propõe uma mudança de foco no tratamento de algumas das questões mais delicadas da vida da Igreja.

Um caminho aberto, não conclusões definitivas

O texto não busca oferecer soluções definitivas, mas sim abrir um caminho de discernimento. Em vez de falar em “questões controversas”, propõe referir-se a elas como “questões emergentes”, entendidas como experiências que levam a Igreja a repensar como viver e transmitir o Evangelho em contextos diversos.

O documento fala explicitamente sobre a dificuldade de harmonizar doutrina e prática pastoral. Ele diz que é “difícil conciliar firmeza doutrinária com abertura pastoral” e que posições polarizadas geram tanto sofrimento pessoal quanto tensões dentro da Igreja.

O texto diz que “posições polarizadas consideradas irreconciliáveis ​​dão origem […] a profundo sofrimento” e a conflitos aparentemente insuperáveis ​​entre aqueles que defendem princípios doutrinários inegociáveis ​​e aqueles que enfatizam a importância da compreensão e do amor misericordioso.

O documento propõe uma mudança de paradigma e sugere um método de três etapas dentro do que chama de “conversação no Espírito”: ouvir a si mesmo, ouvir a realidade e invocar diferentes modos de conhecimento.

É uma dinâmica de escuta que, segundo os autores do relatório, busca promover uma Igreja sinodal na qual o Povo de Deus participe ativamente do discernimento.

O documento fala também sobre a importância de prestar atenção àqueles que vivem nas “periferias” existenciais, sociais e culturais, e menciona exemplos concretos de “questões emergentes”, como o aumento do número de catecúmenos adultos em algumas igrejas locais, o que força uma reconsideração das estruturas pastorais.

Além do testemunho dos dois homens com tendências homossexuais, o grupo de estudo do sínodo fala sobre a experiência da não-violência ativa – testemunhada por um movimento de jovens sérvios que contribuíram para a queda pacífica do presidente da então República Federal da Iugoslávia, Slobodan Milosevic, em 5 de outubro de 2000, inspirando-se nos primeiros cristãos.

Sobre a seleção de bispos

O documento intitulado Critérios teológicos e metodologias sinodais para o discernimento compartilhado de questões doutrinais, pastorais e éticas emergentes reúne as conclusões de uma das dez equipes criadas pelo papa Francisco em 2024, ao fim da primeira sessão do Sínodo da Sinodalidade. Esses grupos foram incumbidos de aprofundar-se, sob uma perspectiva sinodal, em questões relevantes para a missão da Igreja.

O sínodo também publicou o relatório final de outro grupo de estudos, o grupo 7, sobre os critérios de seleção de candidatos a bispo. Entre as qualidades exigidas, segundo o documento, destacam-se as seguintes: “competências sinodais: a capacidade de construir comunhão, a prática do diálogo, um profundo conhecimento das culturas locais e a disposição para se integrar nelas de modo construtivo”.

O relatório solicita também que os dicastérios da cúria romana revejam os seus procedimentos num sentido mais sinodal e propõe mecanismos periódicos para a avaliação independente dos processos de seleção.]

Fonte: ACI Digital

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