Páscoa no sistema prisional: celebração reúne internos e servidores no CERESP

Na última sexta-feira, 8 de maio, o Centro de Remanejamento do Sistema Prisional (CERESP) de Juiz de Fora recebeu a tradicional Missa de Páscoa celebrada junto aos apenados da unidade. A Eucaristia foi presidida pelo Arcebispo Metropolitano de Juiz de Fora, Dom Marco Aurélio Gubiotti, e concelebrada pelos Assessores da Pastoral Carcerária Arquidiocesana, Padre Welington Nascimento de Souza e Diácono Manoel Junior.

A celebração reuniu internos, servidores e membros da Pastoral Carcerária e da Obra dos Encarcerados da Sociedade São Vicente de Paulo em um momento marcado pela fé, pela escuta e pela mensagem de esperança levada pela Igreja ao ambiente prisional. Neste ano, a celebração ganhou um significado ainda mais especial: pela primeira vez, foi realizado o rito do Lava-Pés dentro da unidade prisional, recordando o gesto de Jesus na Quinta-feira Santa. Dom Marco Aurélio lavou os pés de três apenados, representando todos os demais internos do CERESP.

Dom Marco Aurélio, Pe. Welington Nascimento e a equipe diretiva do CERESP

Antes da Missa, o Arcebispo foi acolhido pela equipe diretiva da unidade prisional. O encontro proporcionou um momento de diálogo sobre a realidade vivida pelos policiais penais e pelos profissionais que atuam diariamente no sistema prisional.

Durante a homilia, Dom Marco Aurélio refletiu sobre o discurso de despedida de Jesus presente no Evangelho de São João, recordando que Cristo instituiu a Eucaristia como sinal de serviço e entrega pela salvação da humanidade. “O gesto do Lava-Pés mostra exatamente isso: Jesus, sendo Mestre e Senhor, coloca-se a serviço. Ele nos ensina que, quando colocamos a nossa vida a serviço do outro, encontramos o nosso verdadeiro lugar, o mesmo lugar de Jesus”, afirmou o Arcebispo.

O Pastor Arquidiocesano destacou ainda que o Evangelho é um convite constante à confiança na misericórdia de Deus, mesmo diante das dificuldades e fragilidades humanas. “No enfrentamento de qualquer problema, de qualquer dificuldade, nunca estamos sozinhos. Jesus sempre está conosco. Ele não veio para nos julgar, mas para nos dar vida”, ressaltou.

Dom Marco Aurélio também enfatizou que ninguém perde, diante de Deus, a própria dignidade, mesmo em situações de privação de liberdade. “Mesmo aquele que está apenado é livre para acolher Jesus no seu coração. Livre para viver na disposição de uma vida nova marcada pelo amor e pela graça de Deus. Todos nós precisamos da misericórdia e do perdão de Deus. Ninguém é mais, mas também ninguém é menos. Somos todos filhos amados de Deus”, declarou.

Ao concluir a reflexão, o Arcebispo convidou os presentes a renovarem a confiança em Cristo e a permanecerem unidos a Ele, recordando a passagem do Evangelho em que Jesus se apresenta como a verdadeira videira. “Precisamos estar colados em Jesus. Essa é a proposta do Evangelho: responder pessoalmente ao amor que Deus manifesta a cada um de nós”, refletiu.

Evangelização e presença constante junto aos encarcerados

A celebração também evidenciou o trabalho contínuo realizado pela Pastoral Carcerária e pela Obra dos Encarcerados da Sociedade São Vicente de Paulo, que mantém presença frequente junto aos internos da unidade.

José Carlos Ferreira, membro da Obra dos Encarcerados, relembrou sua trajetória de mais de quatro décadas dedicadas à evangelização no sistema prisional. Segundo ele, o trabalho consiste em levar aos internos uma mensagem de misericórdia e transformação.

“Essas grades precisam lembrar que houve um erro, mas também que existe possibilidade de mudança de vida. Deus permite que a gente enxergue a realidade para recomeçar”, explicou.

Ao falar sobre a evangelização dentro do cárcere, José Carlos recordou a figura de São Dimas, o bom ladrão, como sinal da infinita misericórdia de Deus. “Eu sempre digo para eles: olhem a bondade de Jesus. São Dimas reconheceu seu erro, pediu perdão e ouviu de Jesus: ‘Hoje mesmo estarás comigo no paraíso’. É essa esperança que levamos até eles”, recordou.

O trabalho da Obra dos Encarcerados ocorre quinzenalmente no CERESP, em parceria com a Pastoral Carcerária. Os voluntários realizam momentos de oração, partilha da Palavra e acompanhamento espiritual dos internos.

Igreja como presença de esperança e ressocialização

Ao final da celebração, Padre Welington Nascimento agradeceu a acolhida da direção da unidade e ressaltou a importância da presença da Igreja no ambiente prisional. “Muitas dificuldades são superadas pelo esforço dos agentes públicos que aqui estão. Agradecemos a todos os profissionais e também aos voluntários que há tantos anos levam a Palavra de Deus e sinais concretos de carinho e acolhida aos internos”, afirmou.

O sacerdote destacou ainda que o tempo no cárcere pode se tornar um caminho de conversão e mudança de vida. “Eu sempre gosto de dizer que cadeia é lugar de sair, não de entrar. Que esse tempo seja vivido com coração penitente, confiando que Cristo está ao lado de cada um e que essa página da vida possa ser superada, sem jamais retornar ao crime”, disse.

Fé que humaniza o ambiente prisional

Para o Subdiretor de Humanização do CERESP, Walter Ferrara Netto, momentos religiosos como a Missa de Páscoa possuem impacto profundo dentro da unidade prisional, tanto para os internos quanto para os servidores.

“Em um ambiente marcado por tensões e desafios cotidianos, celebrações religiosas criam espaços de paz, esperança e reflexão. Para os apenados, representam uma oportunidade de reconexão com valores humanos e espirituais. Para os servidores, funcionam como um respiro emocional diante da pressão constante do trabalho”, afirmou.

Segundo ele, a presença da Igreja Católica no sistema prisional contribui diretamente para a humanização das relações dentro da unidade e para os processos de ressocialização.

“A Igreja atua como ponte entre a sociedade e os encarcerados, lembrando que a reintegração social é possível e necessária. Essa presença reforça valores éticos, fortalece a dignidade humana e mostra que a fé pode ser instrumento de transformação individual e coletiva”, destacou.

Com a celebração da Missa de Páscoa, a Pastoral Carcerária Arquidiocesana renovou sua presença junto aos internos e servidores do CERESP de Juiz de Fora, reafirmando o trabalho de acompanhamento espiritual realizado na unidade ao longo do ano.

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