Na última quarta-feira, 29 de abril, a Penitenciária José Edson Cavalieri, em Juiz de Fora, recebeu a tradicional Missa de Páscoa celebrada anualmente junto às pessoas privadas de liberdade. A celebração foi presidida pelo Arcebispo Metropolitano de Juiz de Fora, Dom Marco Aurélio Gubiotti, e concelebrada pelos Assessores da Pastoral Carcerária Arquidiocesana, Pe. Welington Nascimento de Souza e Diácono Manoel Junior.
Também esteve presente o Juiz da Vara de Execução Penal (VEP) de Juiz de Fora, Dr. Evaldo Elias Penna Gavazza, além de representantes da unidade prisional, agentes e integrantes leigos da Pastoral Carcerária. Reunindo homens e mulheres do regime semiaberto, a celebração foi marcada por gestos de acolhida, espiritualidade e esperança.
Neste ano, a celebração teve um significado ainda mais especial: pela primeira vez, foi realizado o rito do Lava-Pés dentro da unidade prisional, recordando o gesto de Jesus na Quinta-feira Santa. Dom Marco Aurélio lavou os pés de três mulheres e três homens apenados, em um momento marcado pela emoção e pelo silêncio contemplativo dos presentes. Muito mais difícil do que lavar o pé de algumas pessoas e beijar o seu pé, é viver o que Jesus quis dizer: a gente se reconhecer irmãos com a mesma dignidade, seja qual for a nossa condição. Isso é um desafio para todo cristão”, explicou.
O Arcebispo também destacou que o gesto foi inspirado pela proposta do Pe. Welington e representou uma oportunidade de renovar, junto aos apenados, o sinal vivido pela Igreja na Semana Santa. “Eu tenho certeza que todos aqueles que estavam aqui se sentiram atingidos por esse gesto. O gesto de Jesus é um gesto de serviço, de demonstração de que Ele colocava a sua vida a nosso serviço”, refletiu Dom Marco Aurélio.
Durante a celebração, o Arcebispo destacou que a presença da Igreja no sistema prisional é um testemunho para toda a sociedade. “A Pastoral Carcerária, os leigos e leigas, diácono, padre, eu, nós procuramos dar um testemunho para a sociedade de que aquele ou aquela que foi apenado não perde a dignidade de filho e filha de Deus”, afirmou.
O Pastor Arquidiocesano reforçou ainda que a missão da Igreja não é julgar, mas anunciar a esperança e a misericórdia de Deus. “Eles já estão julgados e apenados. Não é necessário que a gente venha aqui para julgá-los, mas para lhes oferecer uma esperança, a esperança da misericórdia de Deus, do amor de Deus”, pontuou.
“Um momento de acolhida”
A Assistente Social da unidade, Lívia Mendes Viana, ressaltou a importância da assistência religiosa dentro do ambiente prisional e destacou o impacto humano da celebração.
Segundo ela, o trabalho desenvolvido na penitenciária busca garantir direitos e promover um atendimento mais humanizado aos privados de liberdade, incluindo o fortalecimento dos vínculos familiares e o acesso à documentação. Dentro desse contexto, a dimensão espiritual possui um papel importante na reconstrução pessoal.
“Esse momento do encontro religioso é muito importante para eles, porque é uma possibilidade de refletirem sobre tudo isso que viveram até aqui, um momento de acolhida”, avaliou.
Lívia também comentou a emoção provocada pelo rito do Lava-Pés, realizado pela primeira vez na unidade. “Foi muito emocionante, porque é um momento em que alguém que vem falar com a gente os coloca como iguais. Acho que hoje eles vão sair daqui com o coração muito acolhido, com uma nova perspectiva e sempre uma nova possibilidade de recomeçar”, disse.
A presença do Ressuscitado
Para o Pe. Welington Nascimento, a celebração da Páscoa dentro da unidade prisional manifesta concretamente a presença de Cristo Ressuscitado junto aos que sofrem.
O sacerdote recordou ainda que a mensagem pascal é um anúncio de esperança e liberdade interior. “O tempo da Páscoa é a presença do Ressuscitado. E que o Ressuscitado possa estar no coração desses homens e mulheres que estão presos, para que nunca percam a confiança e a esperança. Porque Cristo veio para nos dar liberdade”, afirmou.
A importância da assistência religiosa

O Juiz da Vara de Execução Penal, Dr. Evaldo Elias Penna Gavazza, também destacou o papel da assistência religiosa no processo de ressocialização.
Segundo ele, o sistema penitenciário possui pilares fundamentais como educação, trabalho e espiritualidade. “Para que a gente consiga reparar os erros cometidos, é preciso refletir sobre eles. A assistência religiosa faz com que a gente interiorize essa reflexão e consiga trilhar caminhos diferentes”, ressaltou Dr. Evaldo.
O magistrado recordou ainda a figura de São Dimas, o bom ladrão crucificado ao lado de Jesus, como sinal de esperança para aqueles que desejam recomeçar. “As penalidades humanas são temporais, mas o perdão de Deus é eterno, infinito. A misericórdia é infinita”, apontou.
Dr. Evaldo também ressaltou a importância do respeito às diferentes manifestações religiosas dentro do sistema prisional: “Nós levamos aquilo que recebemos como verdade para nós, mas respeitamos outras denominações religiosas. O importante é que eles se aproximem de Deus e não olhem apenas para trás”.
“Eu não vim para julgar o mundo, mas para salvá-lo”
Durante a homilia, Dom Marco Aurélio refletiu sobre o Evangelho proclamado no dia, destacando que Cristo veio ao mundo como luz que dissipa as trevas. O Arcebispo explicou que, na Sagrada Escritura, a luz representa a presença de Deus, enquanto as trevas simbolizam tudo aquilo que se opõe ao amor, à vida e à misericórdia.
“Jesus diz que Ele não veio para julgar o mundo, mas para salvá-lo. O Supremo Juiz do céu e da terra diz: ‘Eu não vim para julgar’. Essa é a maneira como Jesus trata cada um de nós”, explicou.
O Pastor Arquidiocesano ressaltou que, mesmo diante do pecado humano, Deus nunca deixa de oferecer misericórdia e possibilidade de recomeço. Utilizando a imagem de um espelho embaçado, explicou que o ser humano jamais perde a imagem de Deus, ainda que sua semelhança possa ficar obscurecida pelo pecado. “A imagem não muda, mas pode ficar embaçada. Nós embaçamos a imagem de Deus quando não seguimos Sua Palavra. Mas a misericórdia de Deus sempre nos resgata”, frisou.
O Arcebispo também recordou que a vida eterna anunciada por Cristo começa já nesta vida, quando o ser humano escolhe viver segundo o Evangelho. “Com Jesus, nós temos força, coragem e paz interior para enfrentar qualquer tipo de dificuldade, seja qual for a nossa condição”, afirmou Dom Marco Aurélio.
Ao final da reflexão, relembrou ainda o testemunho de Santa Catarina de Sena, celebrada naquele dia pela Igreja. Mesmo analfabeta e enfrentando limitações de saúde, a santa tornou-se uma das maiores doutoras da Igreja, mostrando que nenhuma limitação é capaz de impedir alguém de oferecer o melhor de si a Deus. “Não existe nada, nem ninguém, que possa impedir que nós ofereçamos o melhor de nós para o Senhor”, concluiu.