A Paróquia Senhor Bom Jesus do Matozinhos, em Bom Jardim de Minas (MG), celebra 170 anos de criação canônica, reafirmando uma trajetória marcada pela fé, pela tradição e por um papel decisivo na formação histórica e cultural da cidade. Mais do que um marco institucional, o jubileu recorda um caminho iniciado ainda no século XVIII, quando os primeiros sinais de devoção deram origem a um povoado que cresceu ao redor da presença da Igreja.

Criada oficialmente através da Lei Provincial nº 761, de 2 de maio de 1856, a paróquia é fruto de um longo processo de organização religiosa e social, nascido da vivência concreta da fé por parte dos primeiros moradores da região. Ao longo de quase dois séculos, tornou-se referência espiritual e também ponto de unidade para gerações de fiéis, mantendo viva a devoção ao Senhor Bom Jesus do Matozinhos.
As origens: fé que deu início a uma cidade

A história da paróquia começa antes mesmo de sua criação oficial, remontando ao ano de 1755, quando foi registrada a existência de uma ermida dedicada ao Bom Jesus na antiga Fazenda Bom Jardim, pertencente ao colonizador Antônio Corrêa de Lacerda.
Naquele contexto, a ocupação do território da Serra da Mantiqueira ocorria de forma gradual, marcada por desafios geográficos e pela necessidade de estruturação básica para sobrevivência. Ainda assim, a fé ocupava um lugar central na vida dos colonizadores, que não tardaram em erguer espaços destinados à oração.
A pequena ermida, seguida por oratórios e capelas, tornou-se o ponto de encontro dos moradores, reunindo famílias para momentos de devoção, celebração e convivência. Esses espaços simples foram fundamentais para consolidar os primeiros vínculos comunitários, dando origem ao arraial que, com o tempo, se transformaria na cidade de Bom Jardim de Minas.
Assim, pode-se afirmar que a história do município nasce diretamente da fé e da devoção ao Bom Jesus, sendo a Igreja o verdadeiro núcleo formador da comunidade.
A construção da antiga matriz e a organização do território
Com o crescimento do povoado, tornou-se necessária a construção de um templo mais estruturado. Entre o final do século XVIII e o início do século XIX, foi edificada a antiga Igreja Matriz, posicionada em um ponto elevado, conhecido como Morro da Igreja.
A escolha do local não foi por acaso. Na tradição colonial, os templos ocupavam áreas de destaque, funcionando não apenas como espaços religiosos, mas também como referência geográfica e símbolo de autoridade espiritual e social.
Ao redor da matriz, o arraial começou a se organizar de forma mais definida. Caminhos foram abertos, casas construídas e as primeiras estruturas urbanas começaram a surgir. A igreja passou a ser o centro da vida comunitária, influenciando diretamente a formação do território e o desenvolvimento da localidade.
Registros históricos indicam que, já naquele período, existiam atividades religiosas frequentes, como celebrações, batizados e festas, evidenciando a consolidação de uma comunidade estruturada em torno da fé.
A criação da paróquia e o fortalecimento da vida comunitária
A criação oficial da Paróquia Senhor Bom Jesus do Matozinhos, em 2 de maio de 1856, representou um marco importante na história local. A partir desse momento, a comunidade passou a contar com uma organização pastoral mais definida, com território delimitado, registros próprios e presença constante de sacerdotes.
A paróquia assumiu um papel central não apenas na evangelização, mas também na organização social da região. Em uma época em que as instituições civis ainda eram incipientes, a Igreja exercia funções que iam além do campo religioso, contribuindo para a educação, a assistência e a construção de valores comunitários.
Ao longo dos anos, a atuação da paróquia foi determinante para o crescimento do arraial, acompanhando e influenciando diretamente o processo que levaria à formação do município de Bom Jardim de Minas.
A imagem do Senhor Bom Jesus do Matozinhos: símbolo maior da devoção
A imagem do Senhor Bom Jesus do Matozinhos é, sem dúvida, o maior símbolo da fé do povo bonjardinense. Esculpida em 1781, na cidade de São João del-Rei, a obra foi cuidadosamente preparada para ser venerada na capela local, tornando-se, desde então, o centro da devoção da comunidade.
Produzida em madeira e com rica expressividade, a imagem apresenta características singulares, como o olhar que transmite ao mesmo tempo sofrimento e misericórdia. Esses elementos contribuíram para despertar nos fiéis um profundo sentimento de proximidade com Cristo, fortalecendo a espiritualidade ao longo das gerações.

A devoção ao Bom Jesus não se limita ao aspecto artístico da imagem. Ela está ligada a uma tradição de fé viva, marcada por relatos de graças alcançadas e pela confiança do povo em momentos de dificuldade.
Um dos marcos dessa devoção ocorreu em 21 de abril de 1873, quando a imagem saiu pela primeira vez em procissão pelas ruas da freguesia. O evento reuniu uma multidão expressiva e deu início a uma tradição que permanece até hoje como uma das maiores expressões de fé da comunidade.
A “corda do camelo”: um testemunho material da história
Entre os elementos históricos mais curiosos e simbólicos da paróquia está a chamada “corda do camelo”, encontrada durante obras de reforma na antiga matriz, no ano de 1971.
Datada do século XVIII, a corda possuía originalmente 54 metros de comprimento e foi preservada ao longo do tempo graças às técnicas construtivas utilizadas na época, que incluíam o uso de areia para conservação de materiais.
Atualmente, cerca de 12 metros da corda encontram-se sob a guarda do Museu Mariano Procópio, em Juiz de Fora, enquanto os demais metros permanecem em Bom Jardim de Minas, expostos no Centro Cultural Antoninho Guido de Paula.
O objeto recebeu esse nome em referência à passagem bíblica do Evangelho: “É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no Reino de Deus” (Mc 10,25), estabelecendo uma forte conexão simbólica com a fé cristã. A corda representa um elo concreto entre o passado e o presente, testemunhando a continuidade da fé ao longo dos séculos.
A nova matriz e as mudanças no século XX
Com o crescimento populacional e urbano de Bom Jardim de Minas, surgiu a necessidade de um novo espaço para acolher os fiéis. Assim, em 1969, teve início a construção da atual Igreja Matriz, concluída em 1971.

A nova igreja foi edificada em uma área mais central e acessível, acompanhando a expansão da cidade. Sua construção marcou uma nova fase na organização urbana e pastoral, contribuindo para o desenvolvimento do entorno e para a ampliação das atividades religiosas.
Apesar das mudanças estruturais, a essência da devoção foi preservada, especialmente pela permanência da imagem do padroeiro como centro da vida litúrgica e espiritual da comunidade.
A Festa de Agosto: expressão viva da fé e da cultura
A tradicional Festa de Agosto, dedicada ao Senhor Bom Jesus do Matozinhos, é a principal manifestação religiosa e cultural de Bom Jardim de Minas. Realizada há mais de dois séculos, ela reúne celebrações litúrgicas, procissões, manifestações populares e momentos de convivência comunitária.
A festa ultrapassa o caráter religioso e se consolida como um importante patrimônio imaterial da cidade. É um tempo de reencontro, em que moradores e filhos da terra retornam para celebrar juntos, fortalecendo os laços de identidade e pertencimento.
Ao longo dos anos, a festa manteve sua essência, preservando tradições que atravessam gerações e reafirmam a centralidade da fé na vida do povo bonjardinense.
Os sacerdotes que marcaram a história da paróquia
A trajetória da Paróquia Senhor Bom Jesus do Matozinhos também é marcada pela dedicação de diversos sacerdotes que, ao longo dos anos, contribuíram para sua missão evangelizadora e para o desenvolvimento da comunidade.
Entre eles estão:
1- Padre Francisco Ferreira Garcia
2- Padre Antônio Francisco de Paula
3- Padre Martiniano Teixeira Guedes
4- Padre Miguel Afonso de Oliveira
5- Padre Afonso Benedito Alves
6- Padre Francisco José de S. Monteiro
7- Padre Domingos Antônio Hipólito
8- Padre Nicolau Maria Seandon
9- Padre Querino G. Araújo Recife
10- Padre Pascoal Mauro
11- Padre Manoel Sátyro
12- Monsenhor Domicio de Paula Nardy
13- Padre Francisco Garcia Rey
Vigário: Padre Gregório Neves
14- Cônego Antônio Inácio de Almeida
15- Monsenhor Antônio Cornélio Viana
Vigários: Padre Robson Messias Delgado e Padre Raymundo Salles
16- Padre Márcio Aurélio Neves
17- Padre Luciano Atanázio
18- Padre Anderson Januário Hudson
Vigário: Monsenhor Elias José Saléh Filho
19- Padre Luiz Antônio Baldi Fávero
Vigário: Padre Márcio Cabral
20- Padre Carlos Alberto Moreira
21- Padre José Maria Vieira Novaes
Cada um deles, em seu tempo, deixou contribuições importantes na vida pastoral, social e estrutural da paróquia, ajudando a construir a história que hoje é celebrada.
A nova matriz: um novo tempo para a comunidade

Com o crescimento da cidade e o aumento do número de fiéis, surgiu a necessidade de um espaço mais amplo e adequado para a vivência da fé. Foi nesse contexto que, em 1969, teve início a construção da nova Igreja Matriz do Senhor Bom Jesus do Matozinhos.
A obra representou um marco importante na história da paróquia, não apenas pela dimensão física do templo, mas também pelo significado pastoral. A nova matriz foi pensada para acolher melhor a comunidade, permitindo a realização das celebrações com maior participação dos fiéis e fortalecendo a vida litúrgica.
Concluída em 1971 e solenemente sagrada em 15 de agosto do mesmo ano, a nova igreja também contribuiu para uma mudança no eixo urbano da cidade, impulsionando o desenvolvimento ao seu redor. Mesmo com as transformações, a essência da devoção foi preservada, tendo como centro a imagem do Senhor Bom Jesus do Matozinhos, que continua sendo referência de fé para o povo.
Um legado que continua
Celebrar 170 anos da Paróquia Senhor Bom Jesus do Matozinhos é reconhecer a força de uma história construída pela fé, pela perseverança e pelo compromisso de um povo.
Ao longo dos séculos, a paróquia se manteve como referência de espiritualidade, acolhimento e unidade, acompanhando as transformações da sociedade sem perder sua essência.
O jubileu é, portanto, mais do que uma celebração do passado: é um convite à renovação da fé e ao compromisso com o futuro, para que as próximas gerações continuem encontrando, na paróquia, um verdadeiro sinal da presença de Deus no meio do povo.
Celebração jubilar marca os 170 anos da paróquia
Como parte das comemorações pelos 170 anos de criação da paróquia, a comunidade se reunirá em um momento especial de fé e gratidão. A celebração jubilar acontecerá no dia 2 de maio, às 18h, reunindo fiéis, lideranças e toda a comunidade paroquial.
A Santa Missa será um marco desse jubileu, recordando a história construída ao longo das gerações e renovando o compromisso com a missão evangelizadora. A data escolhida remete diretamente ao dia da criação da paróquia, reforçando o sentido histórico e espiritual da celebração.

O momento também será ocasião de ação de graças por todos aqueles que contribuíram para a caminhada da paróquia ao longo dos anos, reafirmando a fé no Senhor Bom Jesus do Matozinhos e a continuidade desse legado para as futuras gerações.