A Quarta-feira de Cinzas inaugura um tempo que, mais do que marcar um período litúrgico, convida a uma mudança de ritmo interior. A Quaresma nasce como uma pausa simbólica diante da pressa do mundo, um intervalo em que o ser humano é confrontado com sua fragilidade e com o sentido último de suas escolhas. As cinzas, longe de serem um gesto meramente ritual, recordam a condição passageira da vida e desmontam a ilusão de autossuficiência que sustenta tantas práticas individuais e coletivas. Nesse horizonte, a Quaresma se apresenta como um caminho de verdade, no qual a fé não anestesia a consciência, mas a desperta para a responsabilidade ética, espiritual e social.
A homilia do Papa Leão XIV para a Quarta-feira de Cinzas se insere exatamente nessa chave de leitura, ao deslocar o foco da conversão de uma experiência intimista para uma dinâmica mais ampla, que envolve pessoas, comunidades e estruturas. Ao insistir que o mal não é apenas algo externo ou atribuível a inimigos distantes, o Papa toca em um ponto sensível da cultura contemporânea: a tendência de terceirizar culpas e evitar o exame profundo das próprias práticas. Sua reflexão aponta para a necessidade de reconhecer que o pecado também se manifesta nas relações sociais, nos modelos econômicos excludentes, nas lógicas de poder e até nas omissões da própria comunidade religiosa. Assim, a Quaresma deixa de ser apenas um exercício espiritual individual e passa a ser um tempo de discernimento coletivo.
Há, nesse discurso, uma dimensão claramente crítica em relação ao modo como a sociedade moderna lida com o sofrimento, a violência e a desigualdade. Ao falar de um mundo que transforma valores fundamentais em “cinzas”, Leão XIV denuncia a banalização da vida, a fragilização da justiça e a perda de referências éticas comuns. O Papa acrescenta que: “sentir nas cinzas que nos são impostas o peso de um mundo em chamas, de cidades inteiras destruídas pela guerra: as cinzas do direito internacional e da justiça entre os povos, as cinzas de ecossistemas inteiros e da concórdia entre as pessoas, as cinzas do pensamento crítico e de antigas sabedorias locais, as cinzas daquele sentido do sagrado que habita em cada criatura”.
Essa crítica não se limita ao âmbito político ou econômico, mas alcança também uma religiosidade superficial, que se contenta com gestos externos e evita o confronto com as próprias incoerências. A Quaresma, nesse sentido, aparece como um tempo incômodo, porque exige coerência entre fé professada e vida vivida.
Ao mesmo tempo, a homilia carrega uma tensão importante: embora seja forte na análise moral e espiritual do presente, ela permanece, em grande medida, no campo do apelo à consciência. Isso é compreensível no contexto litúrgico, mas levanta a questão sobre como essa consciência desperta se traduz em ações concretas e transformadoras. O risco é que a conversão proposta se limite ao nível do sentimento ou da reflexão, sem gerar mudanças efetivas nas estruturas que perpetuam injustiças. Ainda assim, o mérito do texto está em recolocar a liturgia como espaço de crítica e não de fuga, como lugar onde a fé se encontra com a realidade e a interroga.
A homilia de Leão XIV propõe uma compreensão da Quaresma como tempo profético. As cinzas não simbolizam apenas o fim ou a decadência, mas também a possibilidade de recomeço, desde que haja coragem para reconhecer erros e disposição para mudar. Leão XIV assevera: “Como é raro encontrar adultos que se arrependem, pessoas, empresas e instituições que admitem ter errado!” Trata-se de uma espiritualidade que não separa interioridade e compromisso, oração e responsabilidade social. Nesse horizonte, a Quarta-feira de Cinzas deixa de ser um rito passageiro e se torna um chamado permanente à conversão que toca o coração, as relações e o mundo.
*Escrito por Robson Ribeiro – Teólogo, Filósofo e Historiador