Papa Francisco anuncia diálogo com bispos sobre ministérios na Igreja

Foto: Arquivo Vatican Media

Nesta quarta-feira (24), a Sala de Imprensa da Santa Sé divulgou a mensagem do Papa Francisco por ocasião dos 50 anos da Carta Apostólica em forma de Motu Proprio Ministeria Quaedam de Paulo VI. Dirigida aos bispos, presbíteros e diáconos, às pessoas consagradas e aos fiéis leigos, o documento de Francisco foi assinado no dia 15 de agosto, Solenidade da Assunção de Maria, e publicada hoje.

Para Francisco, documento de Paulo VI inspirou novos desenvolvimentos na Igreja, numa época pós-Concílio Vaticano II e é um convite a novas reflexões que ele pretende fazer junto às Conferências Episcopais. A carta de Paulo VI, de 1972, reformou as ordens menores e subdiaconatos e instituiu ministérios laicais.

Cartas de Francisco continuam a reflexão de Paulo VI

Tendo como pano de fundo as motivações para as mudanças instituídas pelo Papa Paulo VI, Francisco retomou dois documentos recentes que ele escreveu sobre os ministérios instituídos na Igreja. O primeiro, Spiritus Domini, de 10 de janeiro de 2021, que possibilitou o acesso das mulheres ao ministério estabelecido do leitorado e acolitato. E segundo, Antiquum Ministerium, de 10 de maio de 2021, que instituiu o ministério de catequista.

“Estas duas intervenções não devem ser interpretadas como uma superação da doutrina anterior, mas como um desenvolvimento possível, porque se baseiam nos mesmos princípios – consistentes com a reflexão do Concílio Vaticano II – que inspiraram a Ministeria Quaedam. A melhor maneira de celebrar o significativo aniversário de hoje é precisamente continuar aprofundando a reflexão sobre os ministérios iniciada por São Paulo VI” – explicou.

A finalidade do ministério é o bem da Igreja

Francisco considera o tema muito importante para a vida da Igreja e, ao recordar as cartas de Paulo que explicam a riqueza dos ministérios, explica que eles se organizam sobre dois fundamentos: O primeiro é a origem de todo ministério que está sempre Deus, que com o seu Espírito Santo opera tudo em todos (cf. 1 Cor 12, 4- 6); e o segundo diz da finalidade de todo ministério, que é sempre o bem comum e a edificação da Igreja.

“Estes dois fundamentos permitem à comunidade cristã organizar a variedade de ministérios que o Espírito suscita em relação à situação concreta que vive. Esta organização não é um fato meramente funcional, mas é, antes, um cuidadoso discernimento comunitário, na escuta daquilo que o Espírito sugere à Igreja, no lugar concreto e no momento presente de sua vida”, esclarece o Papa.

O Santo Padre explicou, ainda, que toda estrutura ministerial que nasce deste discernimento é dinâmica, viva, flexível como a ação do Espírito e “deve enraizar-se cada vez mais profundamente para não correr o risco de que o dinamismo se transforme em confusão, a vivacidade se reduza à improvisação de improviso, a flexibilidade se transforme em adaptações arbitrárias e ideológicas”.

São Paulo VI – como recordou Francisco, deu uma verdadeira aula de discernimento no Ministeria Quaedam, ao aplicar os ensinamentos conciliares, o que indicou a direção para poder continuar neste caminho. Amparado neste legado de Paulo VI, Francisco explica mais uma vez a atualização que se fez necessária na Igreja hoje, diante das novas realidades que se apresentam.

“Os princípios acima mencionados, bem enraizados no Evangelho e inseridos no contexto mais amplo da eclesiologia do Concílio Vaticano II, são o fundamento comum que nos permite identificar, estimulados pela escuta da concretude da vida das comunidades eclesiais , que são os ministérios que aqui e agora constroem a Igreja”.

“A realidade é superior à ideia”

O Papa também considerou a complexidade do tema e disse ser preciso continuar a reflexão, mas sem a pretensão de definir e resolver todas as coisas, pois assim “provavelmente não conseguiríamos percorrer um longo caminho”. Como recordou a Evangelii Gaudium (nn. 231-233), “a realidade é superior à ideia e ‘é preciso estabelecer um diálogo constante entre as duas, evitando que a ideia se separe da realidade’” (n. 231).

Outro princípio mencionado pelo Papa no mesmo documento é que o tempo é superior ao espaço. “Mais do que a obsessão por resultados imediatos em resolver todas as tensões e esclarecer todos os aspectos, arriscando assim cristalizar os processos e, às vezes, fingir detê-los (cf. Evangelii gaudium n. 223), devemos apoiar a ação do Espírito do Senhor, que ressuscitou e subiu ao céu, que “deu uns para apóstolos, outros para profetas, outros ainda para evangelistas, outros para pastores e mestres, a fim de preparar os irmãos para o exercício do ministério, com a finalidade de edificação o corpo de Cristo, até que todos cheguemos à unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, até o homem perfeito, até que alcancemos a medida da plenitude de Cristo’ (Ef 4: 11-13)”.

Diálogo com Conferências Episcopais

Francisco continua explicando que é o “Espírito que, fazendo-nos participar, de formas distintas e complementares, do sacerdócio de Cristo, faz toda a comunidade ministerial, para construir o seu corpo eclesial” . Como afirmou, o Espírito trabalha nos espaços que nossa escuta obediente disponibiliza para sua ação.

Diante desta dinâmica de discernimento, partindo de uma escuta da voz do Espírito, Francisco partilhou sua intenção de iniciar um caminho de escuta dos bispos, neste clima de caminho sinodal. A ideia é não parar o processo iniciado por Paulo VI, mas frisou o cuidado para não forçar o Espírito, “impondo escolhas que são fruto de visões ideológicas”.

“Por isso, nos próximos meses, nas formas que serão definidas, gostaria de iniciar um diálogo sobre o tema com as Conferências Episcopais para compartilhar a riqueza das experiências ministeriais que a Igreja viveu nestes cinquenta anos, tanto como ministérios instituídos (leitores, acólitos e, só recentemente, catequistas), como ministérios extraordinários e de fato”, explicou.

O Papa encerrou a mensagem confiando este caminho à proteção da Virgem Maria, Mãe da Igreja.

Fonte: Site da Canção Nova

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