“O Apóstolo dos Surdos”: Monsenhor Vicente de Paulo Penido Burnier e seu legado em Juiz de Fora

Anos depois ser ordenado, teve a oportunidade de conhecer outro Santo Padre, Papa Paulo VI

Ao longo de seu centenário, a Arquidiocese de Juiz de Fora carrega em sua história nomes que marcaram a evangelização e o serviço pastoral, e entre eles está o Monsenhor Vicente de Paulo Penido Burnier. Nascido em Juiz de Fora, ele não apenas dedicou sua vida ao sacerdócio, mas também se tornou referência na inclusão de pessoas surdas na Igreja Católica. Mesmo enfrentando desafios por conta de sua própria surdez e deficiência na fala, o presbítero deixou um legado, especialmente com a fundação da Pastoral do Surdo na cidade.

“A voz que tu não me deste”

Filho de uma família católica, cresceu entre nove irmãos, dos quais cinco eram surdos e quatro ouvintes. Desde a infância, inspirou-se na vocação religiosa de seus irmãos, Pe. João Bosco Burnier e Frei Martinho Burnier, nutrindo o desejo de seguir o sacerdócio.

Aos 14 anos, ingressou no Seminário Santo Antônio, sendo acolhido pelo então Bispo de Juiz de Fora, Dom Justino José de Santana. Devido à sua surdez, enfrentou desafios no aprendizado da escrita em latim e português, levando-o a cursar um programa especial de ginásio por sete anos. Em 1942, passou a estudar no Seminário Maior São José, em Mariana (MG), completando dois anos de filosofia e quatro de teologia.

No entanto, sua ordenação esbarrava em um entrave canônico: na época, não era permitido que surdos fossem ordenados sacerdotes. Diante disso, Dom Justino o levou a Roma, onde, em 1950, foi apresentado pessoalmente ao Papa Pio XII. Monsenhor Vicente, fluente em diversas línguas como Libras, português, latim, espanhol, inglês e francês, conversou com o Santo Padre em italiano, solicitando sua ordenação. O pedido foi aceito em 1º de fevereiro de 1951, tornando-se o primeiro padre surdo do Brasil e o segundo do mundo.

O beneditino, Dom Marcos Barbosa, traduziu a vocação e missão do Monsenhor através de um poema intitulado A voz que tu não me deste: “Tu fizeste dos teus olhos ouvidos, ouvidos agudos, escutas o Verbo no verbo dos homens para descobrir no espelho das outras faces o que tu próprio dizias – e o que dizias eram palavras de muito amor: ‘Eis que venho para fazer a tua vontade’. Tu me ofereces uma voz conquistada, a voz que eu te quis negar, para precisar medir o teu amor. Tu ofereces a voz conquistada com o suor de teu rosto, sílaba por sílaba”.

Legado de Monsenhor Burnier
Monsenhor Vicente de Paulo Penido Burnier
Monsenhor Vicente de Paulo Penido Burnier

Ao longo de sua missão, Monsenhor Burnier desempenhou diversas funções na Diocese de Juiz de Fora, incluindo ecônomo do Seminário Santo Antônio, secretário geral e chanceler. No entanto, foi na evangelização dos surdos que encontrou seu principal chamado. Iniciou trabalhos pastorais voltados para pessoas com deficiência auditiva em várias paróquias, culminando, em 2001, na fundação da Pastoral do Surdo em Juiz de Fora, junto com mães de deficientes auditivos, como Flora Maria Teixeira Alves e Conceição Ambrósio. A pastoral, que hoje leva seu nome, é um marco na inclusão e evangelização da comunidade surda. Segundo Flora Maria Teixeira Alves, ele viveu para catequizar os surdos e foi um pastor dos excluídos.

Por sua forma peculiar de falar, muitas pessoas pensavam que Monsenhor Vicente era estrangeiro. Em testemunho para o livro escrito por Dom Eurico dos Santos Veloso sobre o sacerdote, o atual Assessor da Pastoral do Surdo Arquidiocesana, Padre Carlos José Arlindo Silva, recordou a primeira vez que assistiu à missa celebrada por ele, sem saber de sua deficiência. “Foi um misto de alegria e tristeza. Alegria por ver a vocação extraordinária de um sacerdote idoso e surdo, e tristeza por imaginar os desafios que enfrentou para chegar até ali. Sua voz forte me confundia, fazia-me pensar que era um estrangeiro. Na verdade, ele era um estrangeiro em sua própria pátria. Os surdos são assim: esquecidos, colocados à margem, evitados e muitas vezes ridicularizados”, expressou.

Já o Padre José de Anchieta Moura de Lima destacou que Monsenhor foi um homem de fé, esperança e caridade. “Ele defendeu incansavelmente a pastoral para surdos no Brasil e no mundo. Podemos considerá-lo o protagonista dessa pastoral, um verdadeiro santo que percorreu caminhos de santidade sem limites e sem fronteiras”, afirmou.

Hoje, a Pastoral do Surdo segue sua missão, promovendo a inclusão e a evangelização por meio de missas sinalizadas em Libras e iniciativas que garantem a participação dos surdos na vida eclesial e na sociedade. O legado de Monsenhor Vicente de Paulo Penido Burnier continua a inspirar novas gerações da Igreja Particular de Juiz de Fora.

Revista comemorativa

Para celebrar essa trajetória centenária, a Arquidiocese de Juiz de Fora preparou uma edição especial da Revista do Centenário, que narra a rica trajetória de nossa diocese, desde seus primórdios até as celebrações do centenário.

O lançamento acontecerá no dia 21 de fevereiro, na Cúria Metropolitana, a partir das 19h. Todos são convidados para este importante momento de celebração e memória da história da Igreja em Juiz de Fora.

*Com informações do livro “Surdo Congênito se torna padre em 1951”  de Dom Eurico dos Santos Veloso

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