Na manhã da Quinta-feira Santa, 2 de abril, a Catedral Metropolitana de Juiz de Fora reuniu o clero e representantes das paróquias da Arquidiocese para a celebração da Missa dos Santos Óleos — também conhecida como Missa do Crisma ou Missa da Unidade. Presidida pelo Arcebispo Metropolitano, Dom Marco Aurélio Gubiotti, a celebração foi marcada pela bênção dos óleos dos catecúmenos e dos enfermos e pela consagração do Santo Crisma, que serão utilizados ao longo de todo o ano nas celebrações sacramentais. Embora celebrada na Quinta-feira Santa, a Missa não integra o Tríduo Pascal, mas se insere como um dos momentos mais expressivos da comunhão eclesial.
Este ano, a celebração ganhou um significado ainda mais especial: foi a primeira Missa dos Santos Óleos presidida por Dom Marco Aurélio à frente da Arquidiocese de Juiz de Fora. Em suas palavras, o momento foi vivido com profunda alegria e gratidão. Ele destacou o encontro com os padres, diáconos e fiéis como sinal da unidade da Igreja particular: foi, segundo ele, “uma alegria muito grande poder encontrar com os padres, os diáconos, com as representações paroquiais pela primeira vez”, expressando também sua gratidão a Deus pela missão confiada.
Unidade do presbitério e renovação do sacerdócio
A Missa do Crisma é, tradicionalmente, o momento em que os sacerdotes renovam suas promessas sacerdotais, reafirmando o compromisso com o serviço ao povo de Deus. Para o Pároco da Catedral, Pe. João Paulo Teixeira Dias, trata-se de uma celebração profundamente simbólica. Ele explicou que a chamada Missa da Unidade manifesta a comunhão da Igreja “dentro da pluralidade de dons, carismas e diversidade”, tendo Cristo como cabeça deste corpo. Ao lado do Arcebispo e de todo o clero, os padres renovam o seu ministério como um compromisso de amor e serviço, inspirado no próprio Cristo.
Pe. João Paulo também situou a celebração no contexto mais amplo da Semana Santa, lembrando que, na liturgia da noite da Quinta-feira, a Igreja recorda a instituição da Eucaristia e o gesto do lava-pés. “Ele nos pede a fazer o mesmo gesto, de lavar os pés uns dos outros, ou seja, de nos colocarmos a serviço”, afirmou, ressaltando que a vocação sacerdotal está intrinsecamente ligada à doação e à entrega. Em um mundo marcado por violência, guerras e divisões, o sacerdote destacou a necessidade de manter o olhar fixo na luz da ressurreição, capaz de iluminar e fortalecer a fé.
Ainda refletindo sobre o mistério pascal, ele abordou o sentido do silêncio que se inicia com o Tríduo. Um silêncio que, segundo ele, não é vazio, mas carregado de esperança: “é um silêncio de amor”, que convida os fiéis a contemplarem a entrega de Cristo e a prepararem o coração para a alegria da ressurreição. A cruz, antes sinal de morte, torna-se assim sinal de vida e salvação, cujo ápice será celebrado na Vigília Pascal.
Para os padres recém-ordenados, a celebração teve um significado ainda mais marcante. Foi o caso de Pe. Everton Esmério Souza Fernandes, que participou pela primeira vez da Missa do Crisma. Ele destacou a dimensão de unidade do presbitério, reunido em torno do Pastor Arquidiocesano. “Para nós é de grande importância este momento de unidade da Igreja em torno do mesmo presbitério, afinal, somos padres para a Igreja. Fomos escolhidos e chamados pelo Senhor para estarmos juntos, como diz o Evangelista: um só rebanho, um pastor”, refletiu.
Na mesma linha, Pe. Reginaldo Vicente Meireles também vivenciou sua primeira Missa dos Santos Óleos e ressaltou o contexto espiritual da Semana Santa. Ele descreveu este tempo como uma “preparação longa, bonita e forte”, que conduz o povo de Deus a uma profunda reflexão sobre o mistério da paixão, morte e ressurreição de Cristo. Segundo ele, cada celebração nas paróquias é um convite concreto à vivência da fé, culminando na alegria da Páscoa.
Em sua mensagem, o sacerdote reforçou o chamado à participação ativa dos fiéis: a Semana Santa, disse, é “um convite para os cristãos a participar com fé”, abrindo o coração para acolher as graças de Deus. Para ele, viver intensamente este tempo é essencial para compreender, de maneira mais profunda, o mistério central da fé cristã.
Páscoa, fraternidade e compromisso com os que sofrem
Dom Marco Aurélio, por sua vez, ampliou o horizonte da celebração ao conectar o mistério pascal com realidades concretas de sofrimento. Ao falar sobre o sentido da Páscoa, destacou que ela precisa alcançar também aqueles que vivem situações de dor, como os atingidos pelas chuvas recentes na região. Para ele, essas pessoas “precisam de Páscoa”, precisam experimentar a esperança da ressurreição por meio da solidariedade concreta da Igreja.
O Arcebispo também chamou atenção para a dimensão universal da fraternidade cristã, convidando à oração por aqueles que sofrem em contextos de guerra. Ele foi enfático ao afirmar que não se pode permanecer indiferente diante do sofrimento humano, independentemente de nacionalidade ou religião. “Nós reconhecemos a todos como irmãos e irmãs e temos o compromisso de tratá-los como irmãos”, afirmou, recordando que a verdadeira Páscoa só se realiza na construção da paz.
Na homilia, o Pastor Arquidiocesano dirigiu-se de modo especial aos sacerdotes, propondo uma profunda reflexão sobre a identidade e a missão do ministério sacerdotal. Inspirado em um discurso do Papa Francisco, ele destacou que a vida do sacerdote deve ser compreendida antes de tudo como uma vocação enraizada no batismo. “Nunca devemos esquecer que cada vocação específica […] é realização do batismo”, afirmou, alertando para o risco de um sacerdócio reduzido a mera função.
A partir da reflexão do Papa, o Arcebispo apresentou as chamadas “quatro proximidades” que sustentam a vida sacerdotal: proximidade com Deus, com o bispo, com os outros presbíteros e com o povo. Segundo ele, essas dimensões não são tarefas adicionais, mas o próprio caminho para manter viva e fecunda a vocação.
Ao tratar da proximidade com Deus, enfatizou a centralidade da oração e da intimidade com o Senhor, sem as quais o ministério se torna estéril. Já a proximidade com o bispo foi apresentada como uma relação de escuta e discernimento, e não de mera obediência formal. A fraternidade entre os padres, por sua vez, foi destacada como testemunho profético em uma sociedade marcada pela indiferença.
Por fim, ao falar da proximidade com o povo, Dom Marco Aurélio sublinhou que o sacerdote deve estar inserido na realidade concreta das pessoas, compartilhando suas dores e esperanças. Citando o Papa Francisco, lembrou que o povo espera pastores com o estilo de Jesus: “homens compassivos, capazes de parar junto de quem está ferido e estender-lhe a mão”.
Encerrando sua reflexão, o Arcebispo recordou que essas proximidades refletem o próprio estilo de Deus — marcado pela proximidade, compaixão e ternura — e são essenciais para que o sacerdócio seja vivido com autenticidade. Assim, a Missa dos Santos Óleos se revela não apenas como um rito litúrgico, mas como um forte chamado à unidade, à renovação e ao compromisso missionário.
Em meio às celebrações da Semana Santa, a Arquidiocese de Juiz de Fora foi, portanto, convidada a renovar sua fé e sua esperança, reconhecendo na cruz e na ressurreição de Cristo a fonte de vida nova — uma vida que se concretiza na fraternidade, na solidariedade e no serviço ao próximo.