“Fazei isto em memória de mim”: Eucaristia e serviço marcam a abertura do Tríduo Pascal

A celebração da Quinta-feira Santa, no último dia 2 de abril, marcou o início do Tríduo Pascal — o coração do ano litúrgico da Igreja — com a memória da instituição da Eucaristia e o gesto do Lava-Pés. Na Arquidiocese de Juiz de Fora, a data foi vivida intensamente nas paróquias desta Igreja particular, tendo como ponto central a Missa das 19h na Catedral Metropolitana, presidida pelo Arcebispo Metropolitano, Dom Marco Aurélio Gubiotti.

Em uma homilia densa e catequética, Dom Marco Aurélio conduziu os fiéis a compreenderem o sentido unitário do Tríduo Pascal, destacando que não se trata de celebrações isoladas, mas de um único grande mistério celebrado ao longo de três dias. Segundo ele, a liturgia da Sexta-feira Santa, iniciada sem o sinal da cruz e concluída sem bênção final, revela essa continuidade, formando uma “ponte de ligação” entre a celebração da Ceia do Senhor e a Vigília Pascal — “a Vigília das Vigílias”, como ele enfatizou, lembrando que nenhum cristão deveria se privar de participar desse momento central da fé.

Mais do que uma recordação, o Arcebispo explicou que a liturgia cristã é memorial: uma atualização viva dos mistérios da salvação. Ao evocar a tradição judaica da Páscoa, ele destacou a força dessa compreensão. “Nós éramos escravos no Egito”, recorda o pai ao filho, não como algo distante, mas como uma realidade que se torna presente na celebração. É esse mesmo dinamismo que, segundo Dom Marco Aurélio, acontece em cada Missa, independentemente do lugar ou do número de participantes: ali se faz presente o mistério pascal de Cristo.

O tríplice dom: Eucaristia, sacerdócio e amor

No centro da celebração da Quinta-feira Santa está aquilo que o Arcebispo chamou de “tríplice presente” deixado por Cristo à Igreja: a Eucaristia, o sacerdócio ministerial e o mandamento do amor. Ele recordou que, ao instituir a Eucaristia, Jesus não apenas antecipa sua entrega na cruz, mas transforma sua morte em um ato litúrgico, dando um novo significado à Páscoa.

A partir desse gesto, a Páscoa deixa de ser apenas a memória da libertação do Egito e passa a celebrar a passagem da morte para a vida, realizada na cruz. O sangue do cordeiro já não é mais necessário, pois é o próprio Cristo quem se oferece como sacrifício definitivo. Nesse contexto, a ordem “fazei isto em memória de mim” fundamenta tanto a Eucaristia quanto o sacerdócio, garantindo que esse mistério se perpetue ao longo dos séculos em cada comunidade cristã.

O Pastor Arquidiocesano também percorreu as raízes da celebração eucarística na tradição do povo de Israel, destacando os elementos da ceia pascal: o cordeiro, o pão ázimo e as ervas amargas. Cada um deles, segundo ele, carrega um significado que permanece atual. O pão ázimo recorda a urgência e a condição peregrina da Igreja, chamada a ser sempre “em saída”, enquanto as ervas amargas lembram que a salvação passa pela cruz — uma realidade que não pode ser esquecida, mesmo na alegria da ressurreição.

O Lava-Pés e a lógica do serviço

Ao comentar o Evangelho de São João, Dom Marco Aurélio se deteve no gesto do Lava-Pés, aprofundando seu significado para a vida cristã. Ele explicou que, na cultura judaica, lavar os pés era uma tarefa extremamente humilde, geralmente reservada a escravos estrangeiros ou às mulheres nas famílias mais pobres. Ao assumir esse lugar, Jesus rompe com a lógica social da época e propõe um novo modo de organização da comunidade.

Mais do que um gesto de humildade, o arcebispo destacou que se trata de uma verdadeira lição sobre dignidade e fraternidade. Jesus não se humilha, mas revela que ninguém vale mais do que o outro. Ele ensina que a liderança, na comunidade cristã, se realiza no serviço. “Quem lidera, lidera no serviço”, explicou, ressaltando que servir não diminui a dignidade, mas a eleva.

Essa compreensão, segundo o Arcebispo, fundamenta a ideia de fraternidade universal. Todos são irmãos, independentemente de diferenças de nação, raça ou religião. E essa fraternidade não pode ser apenas teórica: ela deve se traduzir em atitudes concretas, inclusive na capacidade de se indignar diante do sofrimento humano.

Uma denúncia profética e um chamado concreto

Em um dos momentos mais marcantes da homilia, Dom Marco Aurélio ampliou a reflexão para além do contexto litúrgico, relacionando o Evangelho com a realidade mundial. Ele chamou a atenção para os conflitos e sofrimentos vividos em diversas partes do mundo, destacando que o cristão não pode permanecer indiferente diante da dor do outro.

A atitude de Jesus, afirmou, é também uma denúncia profética contra as injustiças e desigualdades. A Eucaristia, portanto, não pode se limitar a uma experiência intimista ou devocional. “Nada contra” a oração profunda diante do Santíssimo, disse, mas é preciso reconhecer Cristo na pessoa de quem sofre e ter disposição concreta de servir.

Essa dimensão prática da fé foi retomada no testemunho pessoal que encerrou a homilia. Dom Marco Aurélio partilhou sua própria experiência com o gesto do Lava-Pés, explicando que, durante anos, evitou beijar os pés dos fiéis para não transmitir uma ideia equivocada de humilhação. No entanto, a atitude do Papa Francisco — especialmente ao lavar e beijar os pés de pessoas em contextos de vulnerabilidade, como nas prisões — o levou a reconsiderar esse gesto.

Hoje, ele o realiza não como uma obrigação ou demonstração externa, mas como um sinal profético e um compromisso pessoal. Ainda assim, fez questão de sublinhar que o verdadeiro desafio não está no rito em si, mas em viver o que ele significa no cotidiano. “É facílimo lavar o pé hoje à noite”, afirmou. Difícil, segundo ele, é assumir a proposta de Jesus de, de fato, colocar-se a serviço dos outros na vida concreta.

A mensagem deixada pelo Pastor Arquidiocesano ecoa como um convite exigente: celebrar dignamente a Eucaristia implica assumir o compromisso com o amor concreto, com o serviço e com a fraternidade. É nesse movimento que o memorial da fé se torna vida, e que o Cristo celebrado no altar é reconhecido também no rosto de cada irmão.

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