Leão XIV encerra consistório com apelo para ajudar o mundo a encontrar caminhos de Deus para a paz

O papa Leão XIV agradeceu ontem (27) ao Colégio de Cardeais pelo trabalho realizado no consistório extraordinário de dois dias, destacando as reflexões sobre a guerra, a pobreza e a fragmentação social, e sobre feridas mais profundas como a solidão e a perda de sentido.

Em seu discurso de encerramento, o papa disse que ficou “particularmente impressionado com a maneira como [os cardeais] falaram sobre os jovens”, especialmente sobre o sofrimento que, às vezes, pode levá-los “ao desespero extremo de tirar a própria vida”.

“Vocês reconheceram uma das feridas mais profundas do nosso tempo”, disse ele, “mas também foram capazes de reconhecer a obra do Espírito Santo [na] busca deles por autenticidade, por relacionamentos genuínos e por significado”.

Abordando outra das feridas do mundo — a guerra — Leão XIV reafirmou temas de sua encíclica Magnifica humanitas, dizendo que a guerra deriva de uma “cultura do poder” mais ampla que afeta a política, a economia e até mesmo a religião.

“A guerra nasce dentro de nós”, disse ele, mas é “precisamente no coração que a paz também é decidida”. É nesse mesmo coração, disse o papa, que Cristo “continua a nos encontrar, a falar conosco e a nos converter”, e Leão XIV fez um apelo por um renovado compromisso com o diálogo, a cooperação multilateral e as respostas não-violentas fundamentadas no Evangelho.

Embora os cardeais tenham discutido a “guerra justa”, o papa não citou especificamente essa tradição em seu discurso, falando, em vez disso, sobre o tema da autodefesa à luz das “profundas transformações” nos conflitos contemporâneos.

A reflexão sobre esse tema precisa ser “mais aprofundada”, disse ele, “com o rigor teológico e pastoral necessário”.

Num apelo global, Leão XIV disse: “Deus deseja a paz para cada nação e para cada povo”, exortando a Igreja a ajudar o mundo a rejeitar a violência e a redescobrir os caminhos de reconciliação do Senhor.

O papa Leão XIV falou também sobre a importância da família, da doutrina social da Igreja e da formação da consciência, reafirmando o papel do diálogo ecumênico e inter-religioso na promoção da paz.

Ele exortou os cardeais a aprofundar o caminho sinodal da Igreja como um “estilo espiritual” enraizado na escuta, no discernimento e na fidelidade ao Evangelho. A sinodalidade, disse ele, não se trata primordialmente de estruturas ou tomada de decisões, mas de salvaguardar a missão da Igreja por meio do discernimento compartilhado.

“A questão não é quem decide”, disse ele, “mas como podemos, juntos, salvaguardar o dom confiado à Igreja”.

Leão XIV encorajou os cardeais a promoverem a participação ativa em todas as Igrejas locais, dizendo que a sinodalidade autêntica surge do encontro e da abertura ao Espírito Santo.

Ele comparou esse encontro de dois dias — que teve um formato sinodal distinto de discussões em grupos de trabalho — ao relato do Evangelho sobre os discípulos a caminho de Emaús, no qual Cristo renova a esperança e esclarece a missão.

Referindo-se a uma reunião de bispos em outubro para marcar o 10º aniversário da Amoris laetitia, o papa disse que o encontro fará parte da implementação do Sínodo da Sinodalidade — uma oportunidade para “promover espaços onde o Povo de Deus possa ouvir uns aos outros, rezar, discernir e caminhar junto”.

Leão XIV encerrou confiando os frutos do consistório à intercessão de Nossa Senhora. “Que ela nos ensine a preservar a unidade na diversidade e a servir o Evangelho da paz com humildade, coragem e esperança”, disse ele.

O papa reafirmou que esses consistórios extraordinários ocorrerão anualmente e disse que anunciará a reunião do próximo ano no fim do ano atual.

Como o consistório ocorreu a portas fechadas, não foi possível saber exatamente o que os cardeais discutiram na reunião de dois dias.

Em vez disso, os meios de comunicação tiveram que se basear em sínteses fornecidas pela Sala de Imprensa da Santa Sé, que omitiram algumas intervenções importantes, como o apelo do cardeal Gerhard Müller à Santa Sé para que emitisse uma resposta formal ao mais recente desafio da Fraternidade São Pio X a Roma, segundo dito ontem por Nico Spuntoni, do jornal italiano Il Giornale.

As sínteses também não abordaram nenhum dos temas levantados na discussão livre ao fim do consistório. A Santa Sé, no entanto, forneceu os textos completos das reflexões de quatro cardeais.

A sessão da tarde da última sexta-feira (26) sobre A Cultura do Poder e a Civilização do Amor foi inaugurada pelo prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé, cardeal Victor Fernández, que falou sobre o tema e sobre o capítulo quinto da  Magnifica humanitas.

Fonte: ACI Digital

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