Silêncio, cruz e esperança marcam a celebração da Paixão do Senhor

Na tarde silenciosa da Sexta-feira Santa, celebrada este ano no dia 3 de abril, a Catedral Metropolitana de Juiz de Fora tornou-se espaço de recolhimento, contemplação e profunda meditação sobre o mistério central da fé cristã: a Paixão e Morte de Jesus Cristo. Diferente de todos os outros dias do ano, a Igreja não celebra a Missa neste dia — uma ausência que, longe de ser vazio, expressa a densidade do sofrimento e da entrega do Senhor na cruz.

A Ação Litúrgica da Paixão foi presidida pelo Pároco, Pe. João Paulo Teixeira Dias, reunindo fiéis que, em oração, acompanharam os últimos momentos de Cristo, revivendo liturgicamente sua entrega redentora.

O silêncio que fala de amor

Logo no início, o sacerdote situou os presentes no coração do Tríduo Pascal, destacando que a celebração não acontece de forma isolada, mas em continuidade com a Quinta-feira Santa. “Ao celebrarmos este momento, a liturgia em que recordamos a entrega do Cristo, a ação litúrgica, renovamos o mesmo compromisso ontem assumido na ceia do Senhor, de vivenciarmos pelo serviço o mandamento novo, o mandamento de amor. A Eucaristia de ontem que hoje comungamos, recorda-nos esta entrega e este compromisso, pois o Cristo nos alimenta, fortalecendo-nos assim da sua presença e do seu exemplo, para também neste mundo continuarmos esta bonita missão”, refletiu.

Essa unidade entre os dias foi retomada na homilia, quando Pe. João Paulo recordou uma reflexão do Arcebispo Metropolitano, Dom Marco Aurélio Gubiotti, sobre a “harmonia” do Tríduo Pascal. Segundo ele, não se trata apenas de três celebrações sucessivas, mas de uma única ação litúrgica vivida em etapas. “Diferente da cronologia do nosso tempo, é uma única celebração dividida em três partes”, explicou, evidenciando a profundidade do mistério celebrado.

Ao voltar o olhar para a Quinta-feira Santa, o sacerdote destacou o gesto do lava-pés como chave de leitura para compreender a cruz. Ali, não há espaço para poder ou prestígio, mas para um amor que se abaixa e se coloca a serviço. Ele lembrou que o desafio do cristão é justamente viver essa lógica no cotidiano, permitindo que o coração seja movido pela unidade e pela caridade.

Esse caminho encontra seu ápice na Sexta-feira Santa, quando o amor se manifesta até as últimas consequências. A liturgia, marcada por sobriedade e profundidade, conduz ao recolhimento — e foi justamente esse convite que ganhou força ao longo da celebração. Em uma sociedade marcada pelo ruído, o silêncio aparece como expressão de fé e esperança. “Permaneceremos agora no silêncio, o silêncio profundo da espera. O Cristo vai vencer a morte”, disse o sacerdote, apontando para a esperança da ressurreição.

Ao final da homilia, o pároco fez um pedido simples, mas exigente: que os fiéis prolongassem a experiência litúrgica para além da Catedral. Ele sugeriu que cada um retornasse para casa em silêncio, sem conversas ou despedidas. “Saia levando este mesmo silêncio do Cristo que acabou de se entregar por nós”, orientou. O gesto, segundo ele, é um convite a entrar no “silêncio do túmulo”, onde tudo parece encerrado, mas onde a vida começa a germinar. É nesse tempo de espera que a ressurreição, ainda invisível, já está em curso.

A cruz como lugar de missão

A meditação sobre as últimas palavras de Jesus na cruz aprofundou ainda mais o sentido daquele momento. Ao confiar sua mãe ao discípulo amado, Cristo não apenas cuida dos seus, mas inaugura uma nova forma de comunhão. Maria torna-se mãe de todos, presença que acompanha e conduz os fiéis ao encontro do Filho.

Nesse contexto, ao explicar a ausência do Arcebispo na celebração, o Pe. João Paulo fez questão de transmitir com fidelidade a sua mensagem, evidenciando o cuidado pastoral que sustenta a Igreja mesmo longe dos holofotes. Segundo ele, Dom Marco Aurélio não estava, de fato, ausente, mas sim presente de outra forma, junto a uma comunidade que necessitava de sua atenção diante da enfermidade de um sacerdote.

“Não é uma ausência, mas é o olhar amoroso do pastor que reconhece, na grandiosidade desta Igreja particular, no íntimo do seu coração, o desejo de cuidar de todo o rebanho, de maneira especial dos seus padres […] É assim que vivemos o amor de Cristo, quando temos a capacidade até mesmo de deixar, mas do mesmo amor oferecer”, explicou.

A palavra “Tenho sede” foi atualizada para a realidade dos fiéis. Trata-se de uma sede que ainda habita o coração humano: sede de Deus, de sentido, de graça. Em meio a um mundo muitas vezes distraído, a Igreja permanece como lugar onde essa sede pode ser reconhecida e saciada, especialmente na Palavra e na Eucaristia.

Já o “tudo está consumado” não foi apresentado como um fim, mas como o início de uma missão que continua. Mesmo diante das dores do mundo — guerras, violências e sofrimentos próximos —, a obra de Cristo se prolonga na vida daqueles que se deixam configurar a Ele. “Cristifiquemo-nos, sejamos outros Cristos neste mundo”, exortou o sacerdote.

Encerrando a reflexão, ele recordou a oração de Santa Teresa d’Ávila, lembrando que Cristo continua presente no mundo por meio de seus discípulos. “Cristo não tem mais corpo neste mundo. Os pés que o Cristo tem hoje, são os nossos pés para caminhar para o encontro dos irmãos. As mãos que o Cristo tem, são as nossas mãos hoje para curar, tocar e fazer a vontade de Deus, praticar o bem. O bem maior talvez hoje seria o abraço da compaixão”, concluiu.

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