A crise atual do matrimônio não pode ser compreendida adequadamente sem uma análise teológica que ilumine a natureza profunda da união esponsal e os desafios culturais que hoje obscurecem sua verdade. O documento do Dicastério para a Doutrina da Fé, “Una caro”, sobre o valor do matrimônio “como união exclusiva e pertença recíproca”, ao retomar o sentido bíblico e antropológico do matrimônio como “dom único e exclusivo”, oferece uma chave interpretativa essencial para enfrentar essa crise: o matrimônio não é apenas uma instituição social, mas uma realidade teológica que participa do mistério de Deus e revela a vocação do ser humano à comunhão.
A perspectiva teológica do matrimônio parte de um princípio fundamental: o ser humano é criado para a relação e encontra seu sentido mais pleno na aliança. A expressão bíblica “uma só carne”, retomada em Una caro, não designa apenas a união corporal, mas a constituição de uma nova realidade ontológica, marcada pela reciprocidade, pela entrega e pela pertença mútua. No horizonte cristão, essa unidade tem caráter sacramental porque torna visível o amor com o qual Deus Se une ao Seu povo e Cristo à Sua Igreja. Assim, a exclusividade que o documento apresenta como dom não é um limite imposto, mas a linguagem própria de um amor que busca espelhar o absoluto da fidelidade divina.
Entretanto, essa visão é profundamente desafiada pela cultura contemporânea. Ao descrever o “contexto global atual”, Una caro aponta com lucidez o ambiente tecnológico e individualista que alimenta a ilusão do ser humano sem limites. Quando o sujeito moderno vê a si mesmo como autor ilimitado de sua identidade, a promessa de uma união estável e irrevogável aparece como contradição. O matrimônio, que exige abertura ao outro e renúncia a possibilidades alternativas, torna-se difícil de compreender num mundo que exalta o permanente inacabamento das escolhas e a reversibilidade de todos os vínculos. A crise do matrimônio, portanto, é também crise da antropologia: uma sociedade que perdeu o sentido da alteridade dificilmente sustenta a lógica da aliança.
Nesse cenário, multiplicam-se as formas de convivência e “uniões diversas”, muitas delas justificadas pela suposta democratização das relações afetivas. Embora tais experiências expressem a busca humana por vínculo e reconhecimento, elas revelam também a incapacidade de assumir compromissos definitivos. A teologia vê nisso um sintoma espiritual: a dificuldade de dizer “para sempre” não nasce apenas do medo humano, mas da perda do horizonte transcendente que permite confiar no futuro. A promessa matrimonial não é mero acordo civil; ela se apoia na convicção de que Deus sustenta a palavra dada e acompanha o caminho dos esposos. Quando a fé perde credibilidade, a promessa humana perde suporte metafísico.
E é aqui que a reflexão de Una caro toca um ponto decisivo ao advertir sobre a perda de autoridade moral da religião e a “instrumentalização da fé”. Nos últimos anos, a fé cristã tem sido frequentemente usada como instrumento ideológico, político ou identitário, reduzida a bandeira de grupos e não vivida como encontro transformador com o Deus da Aliança. Tal instrumentalização gera um duplo efeito nocivo: por um lado, afasta aqueles que esperam da Igreja autenticidade e testemunho; por outro, esvazia o sacramento do matrimônio de sua força espiritual, transformando-o em cerimônia social ou ritual de prestígio. Quando a religião deixa de ser lugar de conversão e passa a ser palco de disputas, o matrimônio celebrado em seu interior torna-se vulnerável, pois não brota de uma experiência real de fé.
Para a teologia, essa perda de credibilidade não é apenas problema institucional, mas atinge o coração da sacramentalidade. O matrimônio cristão não é magia: é participação na obra redentora de Cristo, que consagra a união humana como sinal de Seu amor. Se a comunidade que deveria sustentar essa experiência se mostra dividida, inconsistente ou mundanizada, o sentido sacramental é obscurecido e os esposos ficam privados de um dos pilares espirituais que deveriam sustentá-los. A fragilidade das relações, nesse sentido, não é apenas psicológica ou cultural: é também teológica, pois nasce da falta de integração entre fé e vida.
Por isso, quando Una caro oferece um “elogio da monogamia”, não se trata de mera defesa moralista de um modelo tradicional, mas da reafirmação da verdade teológica da união matrimonial. A monogamia, sob a luz da fé, não é restrição, mas ícone: ela remete à unicidade de Deus, à fidelidade irrevogável da Aliança, à totalidade do dom de Cristo. Amar uma única pessoa com exclusividade é um modo humano de participar da lógica divina do amor. Trata-se de um caminho de santificação porque educa o coração na constância, na paciência e na superação da autorreferencialidade.
A teologia reconhece que viver essa exclusividade exige maturidade afetiva, formação espiritual e acompanhamento comunitário. E aqui reside a responsabilidade pastoral apontada implicitamente pelo documento. Não basta à Igreja proclamar a verdade do matrimônio; é necessário acompanhar os casais, fortalecer suas estruturas emocionais, preparar bem os noivos e oferecer redes de apoio que tornem possível a vivência concreta da aliança. A promessa feita diante de Deus não resiste sozinha; ela requer um ambiente eclesial coerente, capaz de gerar pertença e sustentar a caminhada.
A crise contemporânea das relações, portanto, manifesta uma tensão espiritual mais profunda: o enfraquecimento da capacidade humana de confiar, entregar-se e permanecer. O matrimônio, enquanto sacramento da aliança, é chamado a ser sinal de resistência. Resistência à lógica da descartabilidade, à superficialidade dos afetos, ao narcisismo que impede a construção do “nós”. Mas essa resistência só será possível se a fé recuperar seu vigor espiritual e sua confiabilidade ética. Onde a fé volta a ser encontro com o Deus vivo — e não instrumento de poder — o matrimônio recupera sua força sacramental. E onde os esposos se apoiam na graça e na comunidade, o amor humano torna-se capaz de atravessar crises, superar feridas e gerar vida.
Assim, aprofundar teologicamente o matrimônio hoje significa reconhecer que sua fragilidade não é apenas falha humana, mas sinal de um mundo que perdeu a referência da aliança. A tarefa da teologia, da pastoral e da própria comunidade eclesial é, portanto, recolocar o matrimônio no horizonte da fé, devolvendo-lhe sua dignidade sacramental e ajudando os casais a descobrir que a exclusividade e a fidelidade não são nostalgia de um passado, mas caminhos espirituais que respondem à sede contemporânea de vínculos verdadeiros, duradouros e fundados na graça de Deus.
*Por Robson Ribeiro – Teólogo, Filósofo e Historiador