Liturgia: Reflexo da Beleza Divina

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O termo liturgia tem raízes no idioma grego podendo ser traduzido como serviço público do culto. A liturgia cristã é a celebração dos Mistérios de Cristo enquanto Salvador da humanidade, atualizando-o. Odo Casel define liturgia como a ação de Cristo através da Igreja.

A liturgia católica compõe-se de vários ritos, sendo o rito latino (ou romano) o mais conhecido aqui no ocidente. Em Juiz de Fora, pode-se conhecer ainda o Rito Melquita para cá trazido pela comunidade libanesa. Também os protestantes tradicionais e evangélicos pentecostais têm seus ritos e liturgias, com suas diferentes expressões, o que constitui um dos pontos de união com os católicos, ortodoxos e outras correntes cristãs no grande louvor a Deus e na celebração de Cristo.

A liturgia, a partir de Cristo, toma forma nova porquanto vence o mero ritualismo para ser autêntica expressão da alma orante, imbuída da ação divina. São Paulo se refere à liturgia cristã como “culto agradável a Deus” (cf. Rom. 12, 1-2).

Toda a liturgia católica é estritamente cristocêntrica, tendo como núcleo a Santa Missa que é ceia e sacrifício, porém sacrifício incruento, ou seja, sem sofrimento. A missa na verdade é única, é eterna. Ele é de Cristo e se repete ininterruptamente através da ação da Igreja.

As celebrações dos sete sacramentos partem e levam ao mistério da redenção celebrada no altar da Eucaristia. Assim, podemos compreender que a palavra de Cristo Fazei isto em memória de mim (I Cor.11,25) não é somente relacionada à consagração do pão e do vinho, mas aplicada a cada sacramento. Também quando o sacerdote vai ungir a um doente, ele ouve dos lábios invisíveis de Cristo: Fazei isto em memória de mim. Da mesma forma os noivos quando vão se casar, o bispo quando vai crismar ou ordenar novos sacerdotes, bem como os ministros quando vão batizar, o padre quando vai absolver pecados. Em todos esses momentos de santificação, está presente a ação de Cristo. É ele quem age, quem faz.

A liturgia é o ápice da oração cristã, a comemoração do amor supremo, a celebração da presença de Deus junto a seu povo. Da liturgia parte toda a espiritualidade cristã, toda oração pessoal, íntima, comunitária ou pública. Victor Hugo afirmava: A oração é a irmã trêmula do amor.

Para haver liturgia, é indispensável, sobretudo o silêncio, que a alma necessariamente faz diante do inominável, do intocável, do transcendente, do glorioso, eterno e santíssimo Deus que se fez imanente, numerável, tocável, simples e pobre em Jesus de Nazaré, para ser um de nós e nos resgatar. Rubem Alves, que era protestante, certa vez hospedado por vários dias em um mosteiro católico, escreveu coisas lindas sobre a liturgia que se alimenta do silêncio: As pessoas estavam lá para se alimentar de silêncio também. Silêncio tem gosto bom. Não basta o silêncio de fora. É preciso silêncio dentro. Ausência de pensamentos. E aí, quando se faz o silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia. Eu comecei a ouvir. A música acontece no silêncio. No silêncio, abrem-se as portas de um mundo encantado que mora em nós – como no poema de Mallarmé, “A catedral submersa” que Debussy musicou. A alma é uma catedral submersa. No fundo do mar, quem faz mergulho sabe, a boca fica fechada. Os poetas conhecem essa experiência. “Nosso olhar é submarino”, escreveu T. S. Eliot. “Olhamos para cima e vemos a luz que se fratura através de águas inquietas…” Para mim, Deus é a beleza que se ouve no silêncio”.

Tudo que compõe a liturgia tem sentido para expressar a beleza de Deus: os sinos, os cânticos, as velas acesas, as toalhas brancas, os móveis e os vasos, as flores, as vestes, os gestos, sobretudo o livro da Palavra, o Pão e o Vinho que se tornaram o corpo e sangue de Cristo vivo e presente.

Dom Gil Antônio Moreira

Arcebispo Metropolitano de Juiz de Fora

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