Chegou o tempo de elevar os olhos para o alto e apresentar ações de graças a Deus. Tendo completado 75 anos de idade em 9 de outubro passado, entreguei, com muito bom coração ao Sucessor de Pedro, como prevê a legislação canônica, as funções do governo pastoral da Arquidiocese. Meu primeiro sentimento é de gratidão à Igreja que me confiou este ministério tão belo, e também desafiante, por nomeação de Papa Bento XVI, prosseguindo sob as bênçãos de Papa Francisco e de nosso atual Leão XIV. Foram 17 anos de trabalho pastoral e, sobretudo, de caminhada de fé com este bom povo que peregrina nesta amada Igreja Particular juiz-forana e em toda a Província Eclesiástica, incluindo as Dioceses de São João del-Rei e Leopoldina.
Elevo ao Pai Celeste sincera gratidão pelos favores dele recebidos neste tempo, seja nos momentos leves e belos seja nas ocasiões difíceis e pesadas. Quanto a esta realidade, encerro este meu itinerário com a convicção de que as obras de Deus são compostas de luzes e trevas, de cruzes e sinais vivos de ressureição. Nada a reclamar, só a celebrar com os olhos fixos em Cristo Jesus a quem, com alegria e determinação, dediquei minha vida sem reservas e com o coração em harmonia com os irmãos de fé nas sendas do Senhor. Aqui pude conviver com muita gente boa e ajudar a construir uma Igreja cada vez mais viva, sobressaindo os dois Sínodos que celebramos juntos, com participação ativa de quase todos os integrantes das ações pastorais arquidiocesanas, quando foi criado o lema: “Arquidiocese de Juiz de Fora, uma Igreja sempre em missão.”
As decisões pastorais e administrativas tomadas em conjunto, no diálogo e na alegria de servir, possibilitaram vida nova no itinerário eclesial. A criação de Vicariatos Episcopais ambientais possibilitou melhor organização do serviço evangelizador, destacando-se entre eles o Vicariato da Caridade, por reunir um número de atividades e organismos importantes para atender aos pobres, sofredores e vulneráveis. Os vicariatos foram dirigidos por vários padres que se revezavam neste período, se desdobrando para dar tudo de si nas questões relacionadas às suas competências, seja na citada área da caridade e solidariedade, seja no campo da educação católica, no âmbito da família e vida, na comunicação ou ainda na evangelização da juventude, uma das prioridades da CNBB. A todos estes bons presbíteros e diáconos, agradeço sensivelmente. Gratidão também elevo a Deus pelas atividades de formação em nosso Seminário, com acompanhamento bastante próximo, com novas inciativas formativas, agradecendo aos padres e leigos formadores tanto na parte acadêmica quanto na área espiritual, na vida pastoral e em outros âmbitos de importância para as pessoas e para a Igreja.
Agradeço a Deus e aos bondosos padres que facilitaram o trabalho eclesial, recebendo com autêntico espírito sacerdotal, disponibilidade e colaboração, as transferências, abraçando com alegria novas frentes de trabalho pastoral, demonstrando desapego a cargos ou funções, e marcados pela virtude de autêntica humildade. Agradeço a Deus a graça que me deu de ordenar 42 novos padres, que representam hoje quase dois terços do nosso presbitério arquidiocesano, podendo servir a nossa Igreja Irmã – a Diocese de Óbidos – com presença de dois padres continuamente.
Também entrego a Deus, com espírito de respeito e gratidão, os 17 padres que fizeram sua Páscoa definitiva nestes 17 anos, correspondendo a proporção de um falecimento por ano.
Agradeço a Deus pelos Diáconos Permanentes que se multiplicaram três vezes em relação ao número aqui encontrado em 2009. Louvo o trabalho diaconal feito, muitas vezes, no silêncio e na humildade. Sou testemunha da grande importância do trabalho diaconal permanente, ministros ordenados no terceiro grau do Sacramento da Ordem, fiéis colaboradores dos Bispos e dos Presbíteros e servidores dedicados às comunidades.
Agradeço a Deus pelos leigos e leigas engajados nas várias frentes pastorais, organismos e estruturas de Igreja, sobretudo aos que se dedicam na assistência espiritual e humanitária aos doentes e sofredores, pobres e necessitados. Destaque seja dado ao crescimento numérico e qualitativo da presença dos jovens na vida eclesial, tendo nascido o Projeto Jovens Missionários Continentais (JMC), fruto da Jornada Mundial da Juventude com o Papa Francisco, no Rio de Janeiro, em 2013. Também alegra nosso coração ver o crescimento da “Via Sacra dos jovens ao Morro do Cristo”, todos os anos, no segundo domingo da Quaresma, reunindo cerca de 4 a 5 mil jovens a cada ano.
Alegra-me o crescimento dos grupos de Terço dos Homens na Arquidiocese, sendo a oração do Rosário meditação da vida de Cristo ao pulsar do coração de Maria, a Mãe do Senhor.
Alegra-me também o retorno de tantos irmãos não católicos que, sem proselitismo e sem prejuízo ao espírito ecumênico, tem voltado à comunhão plena com a Igreja.
Agradeço a Deus pelas obras físicas que, com a participação viva de fiéis desta Igreja e outros de fora dela, foram construídas, ampliadas, restauradas ou reformadas a serviço da vida eclesial. Entre estas obras está a construção do grande prédio da Cúria, dádiva do Sr. Estevão Bretas e sua família, a reforma ampla do Ceflã, o restauro e complementação da Catedral e sua adaptação criteriosa às normas litúrgicas do Concílio Vaticano II, e o início do restauro da Capela da Santa Casa de Misericórdia, além de várias outras obras nas paróquias, todas analisadas e aprovadas pela Comissão Arquidiocesana de Bens Culturais.
Afinal, sem entrar em maiores detalhes, quero despedir-me de todos, com sentimentos de grande amizade e gratidão, oferecendo a Nosso Senhor os sacrifícios que surgiram na caminhada, que são verdadeiros selos de Deus nas obras da Igreja e nos ministérios exercidos em nome de Jesus Cristo, ouvindo atento sua Palavra: “Quem quiser ser meu discípulo, tome a sua cruz cada e me siga” (Mt 16,24).
Ao despedir-me, desejo pedir perdão ao Pai Eterno e ao santo povo de Deus pelas minhas falhas pessoais e conceder o perdão a quem possa ter falhado, afirmando de coração que não levo nenhum sentimento negativo de nenhuma pessoa, mas só o coração feliz de ter vivido e convivido com este bom povo de Deus, superando na fé as investidas do mal.
Por fim, agradeço a Deus por nos ter mandado o caríssimo irmão Dom Marco Aurélio Gubiotti para ser o novo Arcebispo Metropolitano, a quem desejo, de coração, imenso sucesso e infinitas bênçãos na missão, sob a proteção de Maria, Mãe da Igreja, e Santo Antônio, nosso Padroeiro.
A todos, deixo meu abraço fraterno e minha bênção, em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo. Amém!
Dom Gil Antônio Moreira
Arcebispo Emérito de Juiz de Fora