Viver a Semana Santa em tempo de pandemia

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Chegou o momento de celebrarmos, deste jeito tão diferente, tão novo, a nossa Semana mais importante do ano. O sentimento mais forte deste momento é a nossa comunhão de irmãos em Jesus, Nosso Senhor, distantes fisicamente, mas plenamente unidos espiritualmente por este dom de Deus que são os meios de comunicação: a internet que nos possibilita nos encontrarmos para celebrar a fé que nos une, o amor que nos irmana. De fato, quem nos une agora é Deus.

Estamos todos envoltos em dois sentimentos nestas últimas três semanas: os sofrimentos e as preocupações com a pandemia do novo coronavírus que nos ameaça e pode nos levar desta vida ou levar nossos parentes ou amigos; os sacrifícios de isolamento social, a impossibilidade de trabalhar e o incômodo de não saber até quando esta situação vai perdurar e, ainda, como será nosso sustento depois de tudo disso. Há os que já se perguntam: depois da pandemia sanitária, como enfrentaremos a pandemia econômica?

O segundo sentimento é, contudo, de gratidão a Deus por ver tantas coisas bonitas que o mundo está experimentando nesta situação inusitada e quase misteriosa. Estamos fechados em nossas casas, mas não estamos, na verdade, isolados uns dos outros, pois nos comunicamos por sentimentos de amizade, de fraternidade, de solidariedade, de fé. Fico pensando que, em certo sentido, estamos muito mais juntos agora, mais conectados. O mundo inteiro está rezando muito mais. Nunca o papa, os bispos, os padres estiveram tão presentes em nossas casas, como agora. A Palavra de Deus está chegando intensamente em nossos lares e no coração da maioria.

Li, numa destas mensagens que, se o Demônio teria plano de fechar igrejas, está perdendo feio o jogo, pois a Igreja vem se multiplicando a cada hora que passa com novas visualizações. Diante desta situação tão inesperada e diferente de tudo o que poderíamos imaginar antes da passagem do ano, há três meses, tenho convicção de que Deus está no comando e tem um plano muito especial com tudo isso. Mas é preciso estarmos abertos a Ele.

Eis aí a mensagem central da Liturgia de Ramos que celebramos no último domingo, abrindo a Semana Santa que já estamos vivendo. Somos convidados a estar abertos para acolher, festivamente, entusiasticamente, Jesus que vem para iniciar, de novo, o Seu reinado. Tudo o que está acontecendo me parece nova entrada de Jesus nas Jerusaléns das nossas vidas, de nossos lares, das nossas cidades, nossas nações, do mundo. Há no ar um movimento reiniciador, recriador, e é preciso tomar em nossas mãos os ramos da alegria e da esperança; estender, outra vez, ao chão, os mantos do respeito, da reverência, da adoração a Cristo que vem chegando montado em seu “jumentinho” de simplicidade, de humildade, de concórdia e de misericórdia para, outra vez, nos ensinar a viver.

Nesta experiência de pandemia, de incertezas do dia de amanhã, de até quando ficaremos dentro de nossas casas, somos impelidos a abrir-nos a Ele, e deixar que Seu reino se estabeleça novamente. A capital de Seu reino não será mais Jerusalém, mas o coração de cada pessoa que O ame, de cada família que O abrace.

Observemos que, para Jesus e para seus seguidores, após a entrada solene em Jerusalém, houve um tempo de terríveis provações, mas, a seguir, veio a nova vida que brotou da morte. No correr do tempo, houve o sacrifício da cruz, da lança que abriu o peito do Senhor. Porém, houve também momentos de lava-pés, de instituição da Eucaristia e do sacerdócio cristão, e também da santificação de Dimas, o Bom Ladrão, e da impossibilidade de diálogo com Gester, o mal ladrão, que se fechou em sua irracionalidade.

Mas, o silêncio passará. Chegará a noite de Páscoa e a manhã da ressureição. Na Arquidiocese de Juiz de Fora, dentro do espírito sinodal, preparemo-nos para irmos vivendo, intensamente, esta Semana Santa tão especial, em tempos de pandemia e de isolamento físico, mas não espiritual. É dentro deste ambiente totalmente novo que Deus está nos possibilitando celebrar os santos mistérios da paixão, morte e ressurreição do Seu Divino Filho este ano. Unidos em nosso lema pastoral, “Arquidiocese de Juiz de Fora, uma Igreja sempre em missão”, e o lema bíblico “Proclamai o evangelho pelas ruas e sobre os telhados” (Cf. Mt 10,27), sigamos os passos que Deus nos proporcionou para esta feita.

Desejo-lhe uma abençoadíssima Semana Santa. Que Deus cubra você de suas melhores graças para viver santamente este tempo privilegiado. Nossa Senhora, Mãe do Salvador, a nova Eva, que, ao contrário da primeira que caiu nas trevas do pecado, é puríssima, cheia de graça; Maria, nova Mãe da humanidade redimida pelo Divino Filho, nosso Salvador; Ela nos abençoe imensamente, pois seu Filho veio para nos salvar. Bendito o que vem em nome do Senhor! Hosana nas alturas!

Dom Gil Antônio Moreira
Arcebispo Metropolitano de Juiz de Fora

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