O Incêndio do Brasil

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Na noite de 2 de setembro passado, o Brasil chorou amargamente diante do terrível incêndio que destruiu o Museu Nacional, no Rio de Janeiro. Prédio neoclássico construído no início do século XIX, foi residência da família real de Dona Maria I, incluído o Príncipe Regente que, com o falecimento de sua mãe em 1816, se tornou Dom João VI, o Soberano do Reino Unido Brasil, Portugal e Algarves que, dois anos depois, em 1818, criava o referido Museu, com sede no Campo de Santana.

Naquele prédio de extraordinária beleza arquitetônica, residiram também os então príncipes Dom Pedro de Alcântara Bragança e Dona Leopoldina da Áustria, depois que se casaram em 1817, tendo, nesta ocasião, sido ampliado e embelezado para recebê-los. Ao voltar para Portugal a família real de Dom João VI, em 25 de abril de 1821, o casal continuou a residir neste palácio que deu lugar às mais importantes tratativas e colóquios do processo da independência do Brasil.

Como documento basilar de nossa nação brasileira, foi assinado, a 2 de setembro de 1822 (curiosamente a data do atual incêndio) o Decreto da Independência, pela Princesa Regente Interina, Dona Leopoldina, quando Dom Pedro se encontrava em São Paulo com o fim de resolver problemas de conflitos políticos. Foi de lá que ela lhe mandou o documento e ajuntou carta dizendo: “O pomo está maduro; colhe-o já, senão apodrece”, insistindo com o esposo que proclamasse logo a independência, o que ele realizou com o grito do Ipiranga no dia 7 seguinte.

Constituído como residência da Família Imperial, o Palácio da Quinta da Boa Vista se tornou a primeira sede do governo brasileiro, destacando-se para sempre como o principal edifício da história política do Brasil.

Ali nasceram os sete filhos dos primeiros imperadores, inclusive Dona Maria da Glória, em 1819, que foi Maria II, Rainha de Portugal, e Dom Pedro II, a 2 de dezembro de 1825, Imperador do Brasil de 1831 a 1889. Após seu casamento com Dona Teresa Cristina, em 1843, residiram sempre neste paço imperial, até a queda da Monarquia com a proclamação da República a 15 de novembro de 1899. Ali no Palácio São Cristóvão, nasceram seus quatro filhos, inclusive a inolvidável Princesa Isabel, a 29 de julho de 1846, que marcou para sempre a nossa história-pátria como a Redentora, por ter assinado a Lei Aurea a 13 de maio de 1888, abolindo a escravatura no Brasil, sem dúvida, o nosso mais importante documento social.

Como Museu, abrigava, desde 1892, o maior acervo histórico, botânico, geológico, paleontológico, zoológico, antropológico, arqueológico, biológico e etnológico das Américas, com 200 anos de história desde aquele ano de 1818, quando foi criado, com o nome de Museu Real. Enriquecido enormemente por Dom Pedro II e ampliado em peças e campo de pesquisa já na época da República, abrigava ultimamente mais de 20 milhões de itens. Desde 1938 é tombado pelo IPHAN e, a partir de 1942, administrado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.

É inacreditável que de uns anos para cá os governos brasileiros não tenham protegido esta incalculável preciosidade cultural que destacava o País no cenário mundial! Inacreditável que o Ministério da Cultura tenha permitido que isso viesse a acontecer por falta de verbas. Inaceitável que tenha ficado, sobretudo nos últimos 20 anos, como anunciam os jornais, sem os necessários recursos públicos para sua conservação, preservação, salvaguarda e pesquisa. Revoltante imaginar que no Brasil se gaste dinheiro com tantas coisas inúteis, haja dinheiro a rodo para a corrupção, para pseudo-realizações culturais e não haja investimento para a proteção dos bens culturais autênticos. É de doer quando se escutam discursos popularescos, resumindo ação social a simples doações de cestas básicas, casas populares e invasões de terras, como se centros históricos e núcleos de alta pesquisa fossem coisas da elite.

O País vai se acabando aos poucos graças a políticas criminosas, à destruição da moral familiar, ao sucateamento do ensino e da saúde, dando-nos a certeza que o desastre do dia 2 de setembro 2018, o contrato com que se deu na mesma data em 1822 quando nascia o Brasil como Nação, representa não só a destruição de um grande museu, mas o incêndio que vai destruindo o que resta de nossa Pátria. Permita Deus que não!

Dom Gil Antônio Moreira
Arcebispo Metropolitano de Juiz de Fora

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