Maria, a Virgem de Nazaré, Mulher Orante (Parte 2)

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A partir do livro ‘Maria, Mãe da Humildade’, de autoria de Frei Bruno Varriano, atual guardião da Basílica de Nazaré, na Terra Santa, prossigo reflexões iniciadas no artigo da semana passada, sobre a vida cotidiana de Jesus, Maria e José.

Como família observante das leis divinas, em casa, Maria era a mãe educadora da fé e ensinava, na ordem humana, os princípios da Torá e dos Profetas ao seu menino Jesus que, diante dela, como toda criança hebreia, tinha que recitar, todos os dias, o “Kaddish”, repetindo, com respeitosa piedade, “Santo, Santo, santo é o Senhor”.

Na simplicidade da vida de Nazaré, um povoado perdido no mapa da Galileia, desprezado pelos romanos dominadores e até mesmo pela maioria dos judeus, é que Maria vivia com seu Jesus e José, celebrando na alma o que todos os judeus esperavam, ou seja, que um dia, o Senhor haveria de enviar a Luz. “E a luz brilhou nas trevas…” (Jo 1, 5), escreverá mais tarde João Evangelista, o discípulo a quem coube acolher Maria em sua casa, depois que toda a história chegou a seu cume e à sua vitória, iluminada pela luz esplendorosa do Espírito Santo, do primeiro Pentecostes cristão.

Observando o shabat, o sétimo dia sagrado para o povo judaico, o sábado do descanso semanal, Maria, com sua família preparava, todas as semanas, a mesa de sua casa, ao redor da qual sentava-se José que, como todo bom judeu, dirigia a oração, tendo ao lado sua esposa Maria, e Jesus, para elevar os corações a Deus e agradecer os inúmeros favores que fez e continuava a fazer pelo seu povo. Às mulheres era reservada, entre outras tarefas, a preparação das lâmpadas que acendiam em recipientes próprios para a festa sagrada. Recordemos que quando Simeão, no templo de Jerusalém, comtemplou o menino Jesus nos braços de Maria, exclamou: “Agora posso descansar em paz, Senhor, pois meus olhos viram a tua salvação…, luz para iluminar as nações…” (Lc 2, 29).

Bruno Varriano conta que, certo dia, deu carona a um jovem judeu com quem teve piedosa conversa sobre as coisas sagradas. Em determinado momento, o rapaz lhe disse que, na semana do Yeshivá, a escola rabínica onde os adolescentes aprendem a catequese judaica, ele não usava a internet e nem mesmo o celular. Perguntado o porquê, respondeu o jovem: “porque para interiorizar a Torá, é preciso fazer silêncio, e assim ser conduzido pela Ruahar, o Espírito de Adonai, o Senhor”.

Aqui entendemos a alma judaica e encontramos as razões mais profundas do silêncio de Maria.

Num mundo tão cheio de ruídos de hoje, de tantos barulhos ensurdecedores desta época pós-moderna, Maria, a Virgem Santa de Nazaré, nos ensina as condições para viver em família com Jesus, luz que brilhou nas trevas, como modelo de pessoa orante que tem os ouvidos e a mente, o coração e alma voltados para Deus. Na escola de Maria, aprendemos a amar a Cristo que, de seu seio puríssimo, nasceu por obra do Espírito Santo para nos salvar.

A Virgem por Deus escolhida, preservada de toda mancha, em previsão dos méritos de Jesus Cristo, nosso divino Salvador, é modelo de como todos os cristãos devem celebrar o Natal, abrindo-se à luz que vem do alto.

Dom Gil Antônio Moreira
Arcebispo Metropolitano de Juiz de Fora

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