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A Páscoa e o Sacerdócio

Na abertura do Tríduo Pascal, na Quinta Feira Santa, dá se a celebração da instituição do sacerdócio cristão. Tal ato de Cristo está intimamente ligado à instituição da Eucaristia, o memorial da ceia e do sacrifício do Senhor. O Senhor realizou isto às vésperas de sua morte, à mesa, incluindo a lição do serviço humilde aos irmãos, lavando os pés dos discípulos e proclamando o resumo de sua mensagem: “Meu mandamento é este: amai-vos uns aos outros como eu vos amei” (Jo 13,34).

Como antecipação, os sacerdotes na manhã deste dia se reúnem nas catedrais de todo o mundo para, unidos com seus bispos, e perante eles, renovarem prazerosamente suas promessas sacerdotais. Celebram a misericordiosa instituição do Sacramento da Ordem, feita por Cristo em favor de sua Igreja, o Povo de Deus em marcha.

Neste dia, os presbíteros param um pouco de seus numerosos afazeres, de seus intensos trabalhos nas paróquias, sobretudo do grande movimento de confissões sacramentais próprios da Quaresma e mais ainda da Semana Santa, e reservam o período da manhã desta Quinta Feira, somente para si e para a Igreja local, para estarem, em comunidade, perante Deus, celebrando sua unidade e harmonia com seus bispos, “como as cordas de uma cítara”, como expressou Santo Inácio de Antioquia. Reúnem-se como verdadeiros irmãos, abraçam fraternalmente os diáconos e leigos, reunidos ao redor do Pastor diocesano, da forma que ensina e pede a Igreja.

Como pessoas consagradas e como corpo ministerial, são chamados a renovarem, mais uma vez, seus compromissos para com Deus e a Igreja, na sublime vocação que lhes foi dada: a de serem sacerdotes com Cristo, em Cristo e por Cristo.

Ali vão acompanhados dos fiéis de suas paróquias para alevantar ações de graças pelo que puderam realizar no Reino de Deus durante o ano que passou; para oferecer os momentos difíceis vividos, unindo aos sacrifícios de Cristo celebrados na Sexta Feira Santa, e ainda para pedir graças ao único e Eterno Sacerdote que os auxilie no tempo vindouro. Nesta Missa tão especial, chamada Missa do Santo Crisma, dizem de todo o coração mais uma vez a Cristo: “Aqui estou, feliz e disposto, para continuar a fazer a vossa vontade. Enviai-me mais uma vez para a missão, pois minha alegria é servir-Vos. Como Vós, também eu vim para servir e não para ser servido” (cf Mc 10,45).

Neste momento, ao se preparem para a grande celebração pascal, recordam, com toda a Igreja, que seu sacerdócio não é propriamente seu, mas participação no sacerdócio de Cristo, único e verdadeiro sacerdote, como ensina a Carta aos Hebreus, sobretudo nos capítulos 4 e 5. Agradecem a vocação que Deus lhes deu, sabendo que “ninguém se apropria desta honra, a não ser aquele que foi chamado por Deus, como Aarão” (Hb 5,4).

O Sacerdócio de Cristo, por ser pascal, inclui o sacrifício da cruz, onde ele é sacerdote, é vitima e é altar. Por isso os sacerdotes da Igreja sabem que contarão sempre com desafios e às vezes fortes obstáculos no exercício de seu ministério. Diante de tantos contrastes do mundo de hoje, é justo perguntar: seria fácil ser sacerdote de Cristo hoje em dia? Os desafios sociais continuam gritantes, de ricos cada vez mais ricos e pobres cada vez mais pobres, como se tem repetido em tantos discursos e homilias dos últimos anos. Cristãos são trucidados no Oriente Médio, crucificados, como Cristo e como Pedro, degolados como Paulo, vilipendiados como mártires e confessores. Em nosso país, os atuais desatinos na política e em setores dos que nos governam, quando a corrupção tornou-se um câncer social que atingiu até mesmo grupos que antes mereciam alguma confiança da população. Registremos ainda os abusos de certos setores da mídia lançando dentro dos lares programas televisivos que pretendem destruir a moral cristã, a demolir nossas famílias, a desvirtuarem a educação moral que os pais cristãos desejam dar aos seus filhos.

Tais desafios, contudo, não são apenas dos líderes, mas se estendem por toda a comunidade de fé. Constata-se que ser cristão hoje é uma exigência que se impõe. É um ato de coragem.

Porém, os ministros sagrados e toda a comunidade não são um povo desiludido, nem triste nem desesperado. A própria instituição do Sacerdócio, da Eucaristia, a lição do lava-pés e a proclamação do Mandamento Novo, único de Cristo, os tranquilizam, pois sabem em quem puseram sua esperança (cf I Tim 4, 10), no dizer de Paulo, e sabem que nunca terão um campo livre para atuarem, uma vez que o Senhor também padeceu, morreu, mas não permaneceu na morte, e vive entre nós, de forma invisível, mas real e forte. O momento pascal é a celebração da vitória da vida sobre a morte, do bem sobre o mal. Cristo vive e é nossa vitória! Continua a dizer: coragem, eu venci o mundo! (Jo 16,33).

Ele é a doação divina que permanece!

Feliz Páscoa!


Dom Gil Antônio Moreira
Arcebispo Metropolitano de Juiz de Fora

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