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Quaresma, tempo de servir

A Quaresma é o tempo forte de preparação para a Páscoa, conclamando os fiéis cristãos para a oração, a penitência e a caridade. Culmina com a Semana Santa, onde celebramos liturgicamente os mistérios da Paixão, morte e ressurreição do Senhor.

No Brasil, já há mais de quarenta anos, celebra-se a Campanha da Fraternidade durante a Quaresma, com o fim de auxiliar tal vivência, apontando lacunas sociais onde o amor ao próximo e a justiça estejam comprometidos, propondo ações que transformem a sociedade em uma verdadeira comunidade de irmãos, como a desejou Jesus.

A Campanha da Fraternidade deste ano tem como lema Eu vim para servir. A frase é tirada das expressões de Jesus reveladas nos santos evangelhos, sobre sua missão e a forma dele mesmo realizá-la. Com o tema Fraternidade: Igreja e Sociedade, a CF 2015 quer recordar e celebrar os 50 anos do Concílio Ecumênico Vaticano II (1962-1965), privilegiando dois de seus mais importantes documentos: a Constituição Dogmática Lumen Gentium, promulgada a 21 de novembro de 1964, e a Constituição Pastoral Gaudium et Spes, aprovada e divulgada a 7 de dezembro de 1965. O primeiro Documento, Lumen Gentium, trata sobre a natureza e a missão da Igreja, sacramento de Cristo que é a luz de todos os povos, raças e nações. Procura responder a indagação: Igreja, que dizes de ti mesma? O segundo, Gaudium et Spes, contempla a relação ‘Igreja e mundo’, sobretudo o mundo dos sofredores, excluídos, empobrecidos, reforçando que as alegrias e esperanças, angústias e sofrimentos do mundo são as alegrias e esperanças, angústias e sofrimentos da Igreja.

A CF 2015 traz à tona, mais uma vez, estes temas, a fim de que não nos dispersemos na busca da fidelidade ao que ensinou Jesus, com sua vida, sua pregação, seus sinais.

Na Quaresma nos fortalecemos para a vivência da fé diuturna e para a missão de evangelizar, pois o Senhor, após a ressurreição, enviou os discípulos a irem por todo o mundo e pregarem o evangelho a todas as criaturas.

Evangelizar não significa apenas pregar em praças públicas ou em Igrejas, por mais belas que sejam as pregações. Significa agir, como Jesus fez, pois, na verdade, se prega muito mais pelas atitudes concretas, ou seja, pela vida que se leva, que pelas palavras que são ditas. Esta é a verdadeira evangelização, o anúncio da Boa Nova de Cristo sempre atual e edificante.

Prosseguindo o espírito do Concílio, o Papa Paulo VI (1963-1978) vai dizer na Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi (8 de dezembro de 1975): E esta Boa Nova há de ser proclamada, antes de mais, pelo testemunho. Suponhamos um cristão ou punhado de cristãos que, no seio da comunidade humana em que vivem, manifestam a sua capacidade de compreensão e de acolhimento, a sua comunhão de vida e de destino com os demais, a sua solidariedade nos esforços de todos para tudo aquilo que é nobre e bom. Assim, eles irradiam, de um modo absolutamente simples e espontâneo, a sua fé em valores que estão para além dos valores correntes, e a sua esperança em qualquer coisa que se não vê e que não se seria capaz sequer de imaginar. Por força deste testemunho sem palavras, estes cristãos fazem aflorar no coração daqueles que os vêem viver, perguntas indeclináveis: Por que é que eles são assim? Por que é que eles vivem daquela maneira? O que é, ou quem é, que os inspira? Por que é que eles estão conosco?

A CF 2015 destaca figuras emblemáticas da Igreja que souberam encarnar fortemente esta vivência com ações concretas, como Irmã Dulce, na Bahia, e Madre Teresa de Calcutá, na Índia e em outras partes.

O cartaz não poderia ser mais eloquente: apresenta o amável Papa Francisco num gesto extremamente expressivo, osculando o pé de um ser humano. Não é possível passar esta CF sem nos recordarmos das palavras sábias, e possivelmente um tanto incômodas para alguns: Prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e comodidade de se agarrar às próprias seguranças.

Somos chamados a olhar para Maria, a Virgem fiel, que soube dizer: Eis aqui a serva do Senhor... (Lc 1,38) e, sobretudo a assumir, concretamente, o que o Senhor Jesus ensinou: Eu vim não para ser servido, mas para ser servir e dar a vida para o resgate de muitos (Mc 10, 45).

Dom Gil Antônio Moreira
Arcebispo Metropolitano de Juiz de Fora

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