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Evangelizar com arte

O papa Francisco, em sua Exortação Apostólica Evangelli Gaudium, publicada a 24 de novembro do ano passado de 2013, na Festa de Cristo Rei do Universo, trata da “beleza” como meio importante no exercício da evangelização. Chama à atenção para a Via Pulchritudinis, um tema recorrente desde o princípio da fé cristã, passando pela Idade Média, atravessando os anos da Idade Moderna, penetrando com especial vigor na época Contemporânea. Literalmente diz o papa: É bom que toda a catequese preste uma especial atenção à “via da beleza (via pulchritudinis)”. Anunciar Cristo significa mostrar que crer n’Ele e segui-Lo não é algo apenas verdadeiro e justo, mas também belo, capaz de cumular a vida dum novo esplendor e duma alegria profunda, mesmo no meio das provações. Nesta perspectiva, todas as expressões de verdadeira beleza podem ser reconhecidas como uma senda que ajuda e encontrar-se com o Senhor Jesus. (E.G 167)

O Santo Padre, São João Paulo II, em 1993, em seu Molu ProprioInde a Pontificatus Nostri Initio, afirmou: A fé tende, por sua natureza, a exprimir-se em formas artísticas e em testemunhos históricos, que têm uma intrínseca força evangelizadora e valor cultural, diante das quais a Igreja é chamada prestar a máxima atenção. (Moto Proprio – inde a pontificatus Nostri Initio – 25. III 1993).

A Igreja sempre valorizou a arte como veículo de comunicação das coisas espirituais e como expressão catequética. A informação racional, matemática das coisas, intelectual apenas, não resolve tudo, não atende aos anseios da pessoa humana. A arte vai mais além. Ela comunica revestida de emoção. A beleza (o belo) revela (des-vela) o que pela pura palavra, ou pela pura razão natural, não conseguimos exprimir. A arte, sabemos, ainda não revela com perfeição, por ser terrena, ser humana e por isso imperfeita. Só Deus pode promover uma plena re-velação. Deus é a plena beleza. Nele tudo é perfeitamente belo.

Quando Deus criou o homem e a mulher, criou-os à sua imagem e semelhança, como nos diz o livro do Gênesis em seu capítulo primeiro. Por isso, com razão, podemos dizer que a obra de arte mais perfeita entre as criaturas é, na verdade, a pessoa humana. O corpo humano, por si só, já é uma estupenda expressão de arte. Pensemos no encanto de quem estuda a anatomia! Que maravilha a conjuntura dos órgãos, dos ossos, dos nervos e músculos. Mas este corpo, quando animado pelo espírito que o Criador soprou nas suas narinas (Cf. Gen. 1), se torna uma esplêndida obra digna de encantamento. Nem seria necessária a fé para cair-se num quase espanto de admiração. Se a mente humana é iluminada pela fé, então a admiração se torna um êxtase.

Deus começa a se re-velar à pessoa humana no ato da sua criação. Vai pouco a pouco se dando a conhecer e não o faz sem a beleza, sem o belo, a arte.

Quando chegou a plenitude dos tempos, Deus enviou seu próprio Filho (feito homem) (Cf. Gál. 4,4). Deus mesmo toma um corpo, fez-se matéria-animada, imagem-viva. Revela-se à pessoa humana. E quando Filipe lhe diz: Senhor, mostra-nos o Pai e isto nos basta! Ele, o mestre, responde: Filipe, quem me vê, vê o Pai! (Cf. Jo. 14,8-9). Cristo, visível, é a imagem perfeita do Pai, invisível.

Esta é a função da arte: mostrar com formas, aquilo que é invisível. A expressão do Credo Niceno-Constantinopolitano, Visibilia ad Invisibilia (do visível ao invisível) pode ser, de fato aplicado à arte.

Otávio Ferreira Antunes, autor de um precioso livro com título “A Beleza como experiência de Deus”, diz: “das línguas de fogo nasce a Igreja; de um batismo nasce um membro da Igreja, do pão e do vinho o corpo e o sangue de Cristo, da Santa Face um ícone...” (Antunes, o. c. pag. 142)

Ao surgir e se expandir a Igreja, desde o seu início, os cristãos se expressaram em seus mais nobres sentimentos, por meios artísticos. Pensemos nos afrescos das catacumbas do século I, por exemplo. A liturgia foi sempre e é uma sucessão de expressões do belo que busca ver, sentir e conviver com a realidade maravilhosa de quem experimenta a presença de Deus, e começa já a viver aqui a realidade que viverá em plenitude no céu. A liturgia que não é arte, não é liturgia. Na liturgia, o homem sempre buscou e se aproximou no uso do belo. Canto, música orquestrada, espaço sagrado, arquitetura, vestes, luzes e sombra, imagens, esculturas, pinturas, oratória, gestos, entalhes, vasos sagrados, tapetes, mobiliário etc. À medida que vai passando a história, o homem vai deixando marcados em sua trajetória estes rastros de luz de sua alma artística. É o Criador que também por este meio, vai se tornando mais compreensível, mais visível, mais palpável, a imagem de seu filho Jesus Cristo, plena beleza da re-velação.

Deus, por ser plenitude, perfeição e amor, na verdade, vai se dando a conhecer, mas ao mesmo tempo vai se reservando para a visão final, beatífica. Só no céu poderemos ter visão perfeita do Eterno Belo. Aqui, vai se dando uma movimentação mística, quase lúdica, de Deus que se re-vela e se esconde. É o mistério da maravilhosa bondade do Pai.

Dom Gil Antônio Moreira
Arcebispo Metropolitano de Juiz de Fora

 

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