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Por que há tantas Igrejas?

Cristo desejou uma única Igreja? O que pretendeu a respeito dos seus discípulos? Por que hoje, após dois mil anos de existência, os seus seguidores não se entendem e vivem em tantos grupos separados?
Tais perguntas, certamente intrigam a cristãos e não cristãos. Lendo as cartas de Paulo, os textos mais antigos do Novo Testamento, algumas delas anteriores à redação dos evangelhos, percebe-se que os primeiros cristãos entenderam a importância da unidade, mas ao mesmo tempo, já padeciam de situações humanas geradoras de divisões. O Apóstolo, em várias ocasiões teve que exortar os fiéis para que vivessem unidos e defendessem a autenticidade da fé.

O Evangelho de João, redigido entre os anos 95 e 100, texto bem mais tardio que as cartas de Paulo (falecido por volta do ano 64), apresenta oração na qual Jesus pede explicitamente pela unidade, dizendo: “Que todos sejam um, ó Pai, como eu e Tu somos um, a fim de que o mundo creia.” (Jo.17, 22). Sabedores que a redação do quarto evangelho teve, certamente, participação da comunidade joanina, possivelmente a inclusão detalhada da oração do Mestre se explique pela necessidade de insistir na unidade em uma comunidade ameaçada pelo perigo de divisões.

A bi-milenar história do cristianismo revela a dificuldade dos cristãos de permanecerem na unidade desejada por Jesus. Mantida suficientemente até cerca do ano 1000, percebe-se a ameaça freqüente de divisões por interpretações diversificadas da Bíblia, quando não por interesses frágeis e puramente humanos causadores de discórdias.

Por outro lado, nota-se na avenida dos tempos um grande esforço para buscar a unidade perdida, às vezes com sucesso, às vezes não.

O teólogo Pe. Libânio-SJ, falecido ano passado em Belo Horizonte, em um de seus artigos, parecia ser um pouco pessimista quando constatava que, as divisões, em vez de diminuírem, infelizmente têm aumentado, com o surgimento de tantas denominações evangélicas. Se isto é verdade, é também verdade que o espírito de concórdia, de mútua compreensão, de autêntico ecumenismo tem crescido visivelmente, mesmo se ainda existam radicais, proselitistas e sectários.

Um dos esforços mais expressivos tem sido a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos que existe a mais de cem anos. Surgiu por iniciativa de dois jovens Pastores anglicanos, Spencer Jones e Lewis Thomas Watson, nos Estados Unidos, em 1908, abraçada posteriormente por várias outras igrejas, inclusive a Católica, sendo hoje uma realidade em todo o mundo. Em certos paises é celebrada em janeiro; no Brasil, realiza-se na semana preparatória para Pentecostes, ressaltado que a unidade é fruto do Espírito Santo.

O ideal da unidade não pode ser perdido. Seria trair a Cristo. Tal ideal é expresso pelo Pastor Haroldo Mendes, da Igreja Anglicana nestes termos: “Devemos mostrar ao mundo que em Cristo Jesus somos unidos...Nós membros do CONIC, devemos celebrar juntos, nos encontrar para orar e estudar a Palavra e, também, trabalhar juntos em prol da justiça, unindo nossas Igrejas”.

Talvez o testemunho da focolarina Heloisa Silveira possa ajudar na procura da unidade: “Chiara Lubich me ensinou que devemos a cada dia, ao acordar, ver os irmãos como se nunca tivéssemos nos visto, zerando as nossas relações, nossas mágoas, começando tudo de novo”.

Possivelmente nenhum de nós tenha resposta satisfatória para a pergunta em epígrafe: Por que há tantas Igrejas? Mas certamente, todos estamos convencidos de que a reconstrução da unidade pedida por Jesus depende de cada um e, sem nenhuma dúvida, da confiança na oração, o diálogo amoroso que se dá quando se deixa guiar pelo Espírito.

Orai, sem cessar! Eis o caminho.


Dom Gil Antônio Moreira
Arcebispo Metropolitano de Juiz de Fora

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