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Quanto é bela uma vela acesa!

Em geral, os atos religiosos de qualquer credo se expressam por símbolos. Nem poderia ser diferente, pois a fé se dá por crer naquilo que não se vê. Porém, a comunicação se faz por sinais sensíveis, empregando-se os cinco sentidos naturais: a vista, o ouvido, o olfato, o tato e o paladar. Religião é comunicação entre Deus e a humanidade, entre a humanidade e Deus, de forma pessoal ou comunitária. Cristo é, em pessoa, o único comunicador entre os seres humanos e Deus. Todos os símbolos da fé servem unicamente para expressar esta verdade.

Um dos símbolos visuais mais belos e significativos da fé cristã é a vela acesa. Ela nos leva a compreender melhor a luz de Deus que nunca se apaga e sem a qual é impossível acertar o caminho. A luz de Deus é Cristo, como ele mesmo afirmou: “Eu sou a luz do mundo, quem me segue não andará nas trevas, mas terá a luz da vida!” (Jo 8,12).

No dia 2 de fevereiro, a liturgia cristã celebra, desde época muito antiga, a Festa da Luz, quando os féis, com velas acesas nas mãos, caminham em procissão em direção à Igreja, onde vão celebrar a Eucaristia em recordação da ‘Apresentação do Menino Jesus no Templo de Jerusalém’. O texto bíblico (Lc 2, 22-35) descreve a cena de Maria e José, com seu Menino Jesus, adentrando ao Templo e encontrando-se com duas pessoas idosas iluminadas pela luz da fé. Eram o velho Simeão e a octogenária Profetisa Ana, almas de Deus que viviam na viva esperança do cumprimento das promessas do Altíssimo. Naquela hora, disseram coisas muito especiais, prorrompendo o coração do justo ancião em oração e assim pode ser resumida: “Agora posso descansar em paz, pois meus olhos viram a Salvação ... luz para todos os povos” (cf. Lc 2, 29-32). Tal canto é tão caro à Igreja que é posto na Liturgia das Horas, para que seja rezado, todas as noites, antes do repouso noturno, recordando que Cristo é luz que dissipa as trevas e que vence a escuridão de todas as noites existenciais que possam surgir. Ana se pôs a louvar a Deus e a falar sobre o Menino a todos que aguardavam a salvação, iluminando a esperança nos corações.

A Festa litúrgica da ‘Apresentação do Senhor’ está colocada a cerca de 40 dias depois do Natal, quando a Luz surgiu nas trevas, e, ao mesmo tempo, aponta para a Páscoa, quando se acenderá o Círio Pascal, símbolo do Cristo Ressuscitado, vencedor das trevas do pecado e da morte.

Maria, a Mãe do Salvador, comparece como aquela que sabe ouvir, a Virgem oferente que sabe ofertar tudo de si a Deus. A ela, Simeão anuncia alegrias e dores, prenunciando a paixão do Senhor, quando se refere a mística espada que lhe atravessará a alma.

A partir desta particular participação de Maria na ação redentora de Cristo, neste dia se celebram especiais louvores também à Virgem Santíssima, com vários títulos, todos relacionados a Cristo, luz das nações e glória de Israel, sobretudo Nossa Senhora da Candelária, das Candeias, da Luz, do Bom Sucesso e outros.

As datas das festas cristãs são também simbólicas, pois não é possível precisar qual o dia exato do nascimento de Cristo e nem a data corretíssima da morte e ressurreição do Senhor, mesmo porque os calendários modernos não são os mesmos da época dos fatos. No Oriente, por exemplo, antigamente se celebrava a natividade do Senhor no dia 6 de janeiro e a Apresentação, no dia 15 de fevereiro. Houve regiões que chegaram a celebrar a Páscoa em dia fixo e houve ocasião em que o ano começava com a festa da ‘Encarnação do Verbo’, que se dava no dia referente hoje a 25 de março, dia da Anunciação do Senhor. Daí a origem do nome Abril para o primeiro mês daquele mencionado calendário, e a sequência de setembro, outubro, novembro e dezembro, correspondentes aos sétimo, oitavo, nono e décimo mês. No atual calendário que seguimos no Ocidente, chamado Calendário Gregoriano, tais meses não correspondem mais ao seu número sequencial, mas são conservados por motivos práticos e históricos.

O tempo, o espaço, os corações, a vida e nós mesmos somos, pela fé, iluminados pela luz de Cristo simbolizado pelas velas acesas que utilizamos na liturgia ou em qualquer espaço reservado ao amor de Deus.

Dom Gil Antônio Moreira
Arcebispo Metropolitano de Juiz de Fora

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