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Ano Novo complicado, mas iluminado pelo Natal

Como almejar um Feliz Ano Novo numa situação política como a brasileira, onde tudo parece continuar sem solução? Como dizer boas festas, num ambiente tão funesto com tanta violência, corrupção e enganos como o que estamos experimentando hoje em dia? Diante de um mundo tão agressivo à fé, tão marcado por secularismo, contraditório em seus termos, que ao mesmo tempo prega o direito à diversidade e nega o direito de ser fiel aos princípios religiosos, formular votos de Bom Ano é um desafio. Não há dúvida que somente a fé pode vir em nosso socorro. Ela, segundo a palavra do Mestre de Nazaré, é capaz de remover montanhas.

No Natal, celebramos a consoladora realidade de Deus que se faz pequeno, sendo infinitamente grande; se faz homem, sendo absoluto Deus! O que o orbe inteiro não pode conter, acomoda-se no reduzido espaço do seio de Maria. O que o mundo não é capaz de imaginar, penetra a alma humana com esplendor de santidade que não conhece limites e com a efusão de graças que a mente humana não pode calcular. Deus se faz homem, sem deixar de ser Deus e a humanidade do Menino de Belém é divinizada, sem deixar de ser terrena. Explica-nos São Leão Magno, um dos maiores Papas da história (440-461), que esse estupendo milagre não causou a Deus nenhuma diminuição em sua divindade e nem resultou em nenhuma destruição à humanidade de Jesus. Só Deus pode modificar, desta maneira, as condições e leis da natureza, pois, em geral, o que é maior não cabe em espaço menor, nem o que é menor suporta o peso do que é maior. O forte, em geral, vence o mais fraco, e o rico, em geral, é mais favorecido que o empobrecido. Mas aqui, trata-se de coisa divina, com o poder de Deus que do nada tudo criou, e com o pouco tudo deseja salvar.

O que seria mesmo salvar? Que significado tem este vocábulo com espaço tão especial nas Sagradas Escrituras? Salvar é tirar alguém do perigo, é afastar o frágil da derrota, é devolver o ânimo ao que perdeu a esperança, é levantar o que está abatido, é reacender a fé no coração desiludido, é dar força e coragem ao que se sente impotente diante de agressões, de incompreensões, de correntes contrárias ao que sempre creu, aos ataques à fé, à moral, à virtude. Salvar é resgatar alguém do poder do mal, da força iníqua do pecado, é dar o céu àquele que o perdera e tem certeza de que não o merece, mas o deseja. Salvar para a eternidade é um ato supremo de amor só possível a Deus perfeitíssimo em misericórdia, sabedoria, perdão e amor.

Naquela noite santa de Belém, as coisas se invertem do comum, do corriqueiro e os fatos ganham contornos extraordinários, a fim que a raça humana compreendesse que Deus é todo poderoso e age por extremo de amor. Como afirmou Thomas Merton, “Hoje, Cristo, a Palavra eterna do Pai, que estava no princípio com o Pai, em quem todas as coisas foram feitas, no qual todas subsistem, penetra no mundo criado por ele, para recuperar as almas esquecidas de sua identidade” (Thomas Merton, in Tempo e Liturgia).

A esperança renasce quando se tem certeza de que o Menino de Belém insiste em continuar a nascer em nossos corações, em nossos lares, em nossas comunidades, em nosso povo a cada dia. Somente nós mesmos podemos decidir se o permitiremos. Eis a nossa esperança. Feliz Ano Novo!

 

Dom Gil Antônio Moreira
Arcebispo Metropolitano de Juiz de Fora

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