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A Páscoa do Pastor

No último dia 4 de abril do corrente ano de 2017, a Igreja no Brasil assistiu ao passamento de um dos seus melhores pastores. Era a Páscoa definitiva do Arcebispo Dom Clóvis Frainer, que serviu à Província Eclesiástica de Juiz de Fora por 10 anos, precisamente de 15 de agosto de 1991 a 28 de novembro de 2001, quando recebeu, a seu pedido, o direito de voltar a atuar como simples frade capuchinho, se tornando Arcebispo Emérito. Com 70 anos, retornou para o Rio Grande do Sul, seu Estado de origem, vivendo junto aos seus irmãos de Ordem no Convento Capuchinho de Porto Alegre e depois, a partir de 2014, em Caxias do Sul. Ainda pleno de saúde, pôde continuar a servir ao Povo de Deus, realizando, com alegria e disposição de alma, sua vocação franciscana, no ideal da pobreza evangélica e desapego das coisas deste mundo. Dedicou-se aos estudos, sobretudo bíblicos e à Pastoral.

Embora tivesse o direito de continuar a apresentar-se como Bispo, pois mesmo aposentado o Emérito nunca perde seu caráter episcopal impresso-lhe na alma pelo sacramento da Ordem, preferia assinar como Frei Clóvis-OFM-Cap, demonstrando sua inata humildade e espírito de servidor do Evangelho, sem preocupação com qualquer destaque humano.

Nos anos em que viveu em Juiz de Fora, ficou conhecido como homem de Deus, culto, inteligente e dedicadíssimo à formação bíblico-catequética do povo, seja nas paróquias da sede, seja nas demais 36 cidades que compõem a Arquidiocese juiz-forana. Profundo conhecedor da Bíblia, destacou-se pela sua capacidade de evangelizar, de propor cursos e outros instrumentos didáticos sobre a Palavra de Deus, publicando folhetos de instrução popular que ele mesmo redigia e imprimia na pequena gráfica que montou junto à sua residência, distribuindo-os abundantemente com a ajuda dos padres, diáconos e leigos.

Conhecedor da arte musical, compôs hinos e cânticos para a Liturgia, ensinando-os pessoalmente às comunidades, animando-as para a missão e para o amor a Deus e ao próximo, semeando a paz, o perdão, a concórdia e a justiça. Com seu jeito muito peculiar, brincava como se estivesse falando sério e falava sério como se estivesse brincando. Convidava frequentemente os padres para estarem com ele em sua residência, à qual ajuntou pequena área onde construiu uma espécie de cozinha do jeito gaúcho, servindo churrascos que ele mesmo preparava, com participação de um irmão franciscano que o ajudava nos trabalhos pastorais.

Antes de vir para Juiz de Fora, serviu à Igreja como Arcebispo de Manaus (AM) por seis anos, de janeiro de 1985 até maio de 1991, transferido da Prelazia de Coxim (MS), para a qual foi nomeado primeiro Bispo por São João Paulo II, ali tomando posse no dia 14 maio de 1978. Nestas áreas eminentemente missionárias, aprendeu a doar-se inteira e indivisamente à ação de anunciar o Evangelho com amor e destemor, e preparar missionários para irem pelo mundo afora a anunciar o Evangelho a toda criatura. Presidia a liturgia com gosto e muitas vezes se emocionava, sobretudo, quando ordenava um novo padre, certo de que estava garantido a continuidade da obra de Cristo para a salvação do mundo.

Seu falecimento, verificado nos dias de preparação próxima para a Páscoa, cai-nos na alma como um aceno de Deus que presenteia aquele que vai e deixa marcas indeléveis de religiosidade genuína nas pessoas que ficam, para que sejam firmes na fé, dedicadas na ação de anunciar a Palavra de Deus, vivenciando-a na simplicidade do dia a dia, tal qual fez Francisco de Assis.

Seu corpo foi piedosamente velado na capela São Frei Pio, junto ao Convento dos Capuchinhos, em Caxias do Sul (RS), e transportado à Matriz da Imaculada Conceição, onde foi celebrada a Missa da Ressureição, com as santas Exéquias, às 16h do dia 5 de abril. Ali estava a Arquidiocese de Juiz de Fora representada pelo seu Vigário Geral, Monsenhor Luiz Carlos de Paula, e o Vigário Episcopal para o Mundo da Caridade, Padre José de Anchieta Moura Lima, que enviamos em nosso nome pessoal e de toda a Província Eclesiástica.

Associados aos sentimentos de pesar e de firme fé na ressurreição vivenciados pela família franciscana nesta hora de despedida, mormente os capuchinhos do Sul, a nossa Igreja Particular de Juiz de Fora agradece a Deus pelo extraordinário Pastor que teve por uma década, servindo com tanto ardor, deixando marcas fortes de apóstolo dedicado e autêntico religioso que passou entre nós como verdadeiro anunciador da Paz e do Bem!

Dom Gil Antônio Moreira
Arcebispo Metropolitano de Juiz de Fora

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