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Quaresma: Tempo de Conversão

O vocábulo ‘converter’, etimologicamente, significa verter os olhos para um mesmo ponto, no caso, verter os olhos para o seu próprio interior, revisando sua vida em relação à Palavra de Deus. Para tal exame é indispensável ter o olhar lançado em duas direções: para si mesmo, a fim de reconhecer suas falhas, e para Deus, com objetivo de re-contemplar seu projeto e visualizar sempre de novo a sua misericórdia.

A pessoa humana está sempre sujeita a defeitos, a erros e ao pecado e terá necessidade de estar em contínua atitude de conversão. Nada a deve desanimar, nem mesmo as grandes faltas que por acaso tenha cometido, pois delas pode se arrepender, converter-se e obter de Deus o perdão. Vejamos o que o Senhor nos diz: No mundo tereis provações; mas tende coragem, eu venci o mundo (Jo. 16,33).

Para garantir o perdão a todos os que se arrependem e procuram sinceramente reconciliar-se com Deus, Jesus Cristo instituiu o Sacramento do Perdão, como se vê registrado no evangelho de São João 20,23, dirigindo-se aos apóstolos: Recebei o Espírito Santo! “A quem perdoardes os pecados, serão perdoados; aqueles a quem os retiverdes serão retidos”.

A graça de Deus nos impele continuamente a recomeçar. A queda não pode derrotar quem tem um coração aberto para Deus, quem se dispõe a olhar para frente e sabe que sua força e sua meta estão mesmo no Senhor. Em Cristo somos mais que vencedores, graças àquele que nos amou (cf. Rm. 8,37).

Para bem compreender esta realidade humana de consistência frágil, basta olhar para as coisas materiais. Elas estão continuamente sujeitas à deterioração. Envelhecem, estragam, acabam. Assim também o nosso corpo, assim até mesmo o nosso espírito, que embora seja eviterno, passa por situações muito semelhantes à da matéria no que tange à fragilidade. Mas há no homem o instinto de recomeçar. As coisas nós reformamos, restauramos, renovamos, trocamos peças, repintamos, recondicionamos. Com nosso corpo nós o tratamos, o medicamos, curamos as feridas.

Em relação ao espírito, o remédio que cura é a graça divina, é, na verdade, Cristo que restaura em si todas as coisas, assumindo os nossos pecados e por nós morrendo na cruz. Nele somos reconciliados. Cristo conviveu com o pecado sem se submeter a ele, para nos dar a graça de vencer o pecado, nos reconciliando com Deus. Essa força regeneradora paga com seu sangue derramado na cruz se atualiza no Sacramento da Confissão, praticado nos meios católicos desde os primeiros séculos. Por meio dele, nós participamos da santidade divina, por misericórdia do próprio Deus. O mal nos engana, nos enfraquece, nos distancia de Deus, mas Deus vem em socorro da franqueza humana.

Por isso a Palavra de Deus nos diz: renovai o vosso espírito e a vossa mentalidade. Revesti-vos do homem novo (Ef. 4, 23-24).

Algumas condições são indispensáveis para que gozemos do perdão de Deus. A principal delas é a humildade em reconhecer-nos pecadores e necessitados, irrenunciavelmente, da graça de Deus. Depois é necessário explicitar-se honestamente a Deus, relatando com autenticidade seus pecados a Ele, mediante o ministro sagrado que o representa, abrindo a ação de Cristo que lhe concede o perdão e o reconcilia com a comunidade.

Uma confissão sacramental bem feita traz-nos paz e encoraja-nos no progresso de nossa vida espiritual, comunitária e eclesial. A confissão nos dá a graça da reconciliação e nos devolve o ânimo na luta pela santificação pessoal em favor dos valores do Reino de Deus, de amor, justiça, solidariedade, perdão e paz.

A busca da reconciliação com Deus, com o próximo e com a comunidade de fé nos prepara para a noite santa da Páscoa, quando celebraremos a vitória de Cristo sobre o pecado e a morte. Lá poderemos cantar com alegria: Onde está a tua vitória, ó morte?! Cristo destruiu, com sua morte, todo pecado!

Dom Gil Antônio Moreira
Arcebispo Metropolitano de Juiz de Fora

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