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O Dia em que o Carnaval Rezou

Entre algumas polêmicas, opiniões convergentes ou divergentes, o carnaval de São Paulo homenageou Nossa Senhora, sob precisas orientações da Arquidiocese local, comemorando os 300 anos do encontro da imagem de Aparecida.

Sem entrar na disputa do tema, quero apenas destacar os aspectos positivos que julgo importantes. O Brasil nunca havia visto algo igual. Em pleno desfile, onde antes eram quase obrigatórias cenas de despudor, com exibição inconveniente do corpo humano, haver uma escola de Samba que renunciasse a isto e a outros excessos, para homenagear, respeitosamente, o lado religioso do povo, é mesmo coisa inédita. O que se viu foi um espetáculo de rara beleza, exuberância de arte expressa na música, nos tambores, nas coreografias, no visual de roupas e carros alegóricos evoluindo em desfile na avenida do samba com variadas expressões de amor e devoção à Mãe de Jesus. Aos blocos se deu o nome de Preces. Ouviu-se no enredo um verdadeiro hino à Padroeira, quando o povo cantou: Aos teus pés vou me curvar, Senhora de Aparecida, a prece de amor que nos uniu: Salve a Rainha do Brasil... Oh Senhora, Oh Senhora, reluz teu manto azul bordado em ouro: a bênção de viver a tua glória!

As referências aos pescadores tricentenários, aos milagres, às súplicas dos aflitos, aos afro-descendentes, às ofertas votivas da amada Princesa Isabel, ao Santuário e tudo mais marcaram o grande espetáculo como verdadeira procissão de louvores e ações de graças. A ausência de nudismo e de sincretismo, pedidos pela comissão examinadora da Igreja, à solicitação da “Unidos da Vila Maria”, marcou um carnaval diferente, onde se descobriu que para se alegrar nos três dias do Momo, não são necessários exageros e nem cenas inconvenientes. A paz que se sentiu na hora das evoluções pela avenida demonstrou que é possível um carnaval sem violência e sem excessos.

Alguns protestos anteriormente quase agressivos caíram, ao menos em parte, observando o outro lado da questão. Viu-se que, na verdade, carnaval não é só pecado, mas tem muito de arte e de mensagem e pode até se transformar em prece.

Os enredos quando se referem aos cuidados com a ecologia, protegendo a natureza e a vida, ou quando exaltam figuras de nossos literatos, poetas, cantores, compositores, pintores, escultores, arquitetos ou outros artistas que formam o patrimônio intangível e moral de povo brasileiro, ou quando relembram momentos de nossa história, são verdadeiras lições que, às vezes, ensinam mais que nossas escolas ou faculdades. Neste extraordinário espetáculo brasileiro, apreciado por muita gente no estrangeiro, as mensagens podem enriquecer o conhecimento, despertar atitudes positivas sobre lacunas sociais, e indicar caminhos novos para o comportamento humano.

Não seria generalização preconceituosa considerar o carnaval apenas festa da carne, um festival de orgias ou abusos? Talvez Dom Helder Câmara tivesse, ao menos em parte, razão, quando ele dizia: Carnaval é alegria popular. Direi mesmo, uma das raras alegrias que ainda sobram para a minha gente querida.

Sou de opinião que, quanto a carnaval, deve-se fazer distinção: há um jeito de brincar, de se alegrar, de dançar que não é pecaminoso. Seria injusto considerar generalizadamente pecadores os que brincam o carnaval. Lembro-me que, quando criança, via acontecer nestes três dias que antecedem a Quaresma, cenas de brincadeiras como jogar água ou puxar cordão, cantando folguedos, coisas que não se fazia em nenhuma outra época do ano. Nada havia de estranho nisso. Era, muitas vezes, ocasião de reforçar amizades ou de reatá-las, pois ninguém se irritava quando ganhava um balde de água que lhe molhasse o corpo inteiro ou um monte de confetes que lhe agarrassem ao suor. Naqueles dias não prevaleciam tanto as regras de comportamento, mas eram momentos de descontração, sabendo-se que na vida não se precisa resolver tudo a ferro e fogo, e que o humor também é criatura de Deus. Que Ele nos livre de uma vida sem humor!

Se Deus Pai Misericordioso enviou seu Filho que se fez homem, Verbo Encarnado que se misturou com gente pecadora deste mundo, em tudo sendo-lhe igual, menos no pecado; se Cristo entrou na casa de impuros, causando estranheza aos fariseus e a outros; se o Senhor não considerou a rigorosa lei do Sábado, para poder, em seu lugar, fazer o bem, se louvou a fé de pessoas que nem pertenciam ao seu povo; por que estranhar que se possa prestar louvores a nossa Santa Mãe e Padroeira numa festa que mexe com o Brasil inteiro? Oxalá todas as escolas imitassem a feliz iniciativa da “Unidos da Vila Maria”! O carnaval seria outro e as famílias agradeceriam.

No meu entender, desta vez, a entrada da festa do samba em São Paulo, foi o dia em que o Carnaval rezou.

Dom Gil Antônio Moreira
Arcebispo Metropolitano de Juiz de Fora

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