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Rezar pelos mortos é celebrar a vida

A morte é um mistério. Por mais que sobre ela meditemos, sempre ficará algo para se descobrir. Deus, na sua bondade, no seu inesgotável amor misericordioso, reserva surpresas para nós. Sabemos que os que muito amam, gostam de surpreender com gestos de amizade, de carinho, de emoção à pessoa amada. 

Recordo-me de minha mãe. Nunca deixou de comemorar os aniversários de seus filhos. Desde pequenos, mesmo quando as crises econômicas do país castigavam a população, jamais se dispensava de preparar para nós alguma surpresa para que, à hora marcada, quando os tios, primos e vizinhos chegassem, pudesse oferecer ao menos um copo de suco e um pedaço de torta que enfeitara com velinhas. Lembro-me muito bem de quando fiz, não sei se cinco, seis ou sete anos, quando ela cobriu um pequeno bolo com uma calda de açúcar de cor azul. Fiquei intrigado: como ela consegue fazer isso? Fazer um bolo ficar azul? Surpresa do amor materno, que com pouco dinheiro comprava na farmácia um pouco de anilina, que a gente, criança inocente, nem sabia que existia.

Momento importante era a hora do banho para preparar o momento da festa, tão singela, mas que para os pequenos aniversariantes valia mais que uma formatura para médico ou uma medalha nas olimpíadas. Minha mãe trazia-nos uma roupa nova ou já usada, mas em bom estado, limpa, engomada e muito bem passada. Penteava nosso cabelo e amarrava os cadarços de nossos sapatos. Às vezes tinha que fazer curativos novos em ferimentos nas pernas causados pelas travessuras comuns da criançada.

Não se assuste o leitor se eu disser que isto me ensina muito sobre a realidade da morte. Certamente ela não tem nada de festa quando chega. É dolorosa e causa dor inclusive aos entes queridos. É traumática, às vezes até demais. Mas, mesmo quando é suave, há atrás deste trágico momento, algo de mistério e de revelação. Para o cristão, este momento aponta para surpresas. Sentimos, movidos pela fé que, depois deste transe, há uma festa que nos aguarda. Foi já antecipada pela ressurreição de Cristo que, passando pela noite da morte e a escuridão do sepulcro, derrotou estas realidades e proclamou a força invencível da vida, abrindo a porta de uma nova e definitiva realidade: a eternidade feliz e indestrutível.

O que acontece depois da morte? São apenas dois os destinos possíveis, segundo a revelação trazida por Cristo: a salvação ou a perdição, o céu ou o inferno. Deus dá o céu aos bons e o inferno aos maus para sempre, nos ensinou a catequista. E o purgatório? Também este existe, mas como situação intermediária, obra da imensidão da misericórdia divina. Trata-se da purificação, do embelezamento da alma para se entrar na festa, como o banho lá de casa nos dias de aniversário. O purgatório só serve para os merecedores de salvação, os que aceitaram, às vezes até mesmo sem compreender direto, o imenso amor de Deus, a estupenda misericórdia do Pai. Na verdade, pode subsistir mesmo naqueles que morrem em estado de graça, alguma imperfeição a ser sanada, resto do antigo egoísmo. Aos que se encontram neste estágio, podemos ajudar com nossas preces, como a mãe ajuda a organizar os cabelos, a aparar as unhas, a ajeitar a roupa, ou a amarrar as sandálias, no interregno entre a vida comum e a festa que vai se realizar. É um tempo de expectativa, de certo sofrimento para curar alguma ferida, para que não contamine os demais que participarão da grande festa, para que não cause nenhuma perturbação, pequena que seja, ao ambiente perfumado da perpétua comemoração celestial.

O inferno é idéia terrível, mas inevitável. Há, infelizmente, aqueles que deliberadamente rejeitam a Deus, negam seu amor, traem a caridade, optam pelo mal. Por incrível que pareça, estes elementos existem entre os humanos, dotados de inteligência, liberdade e vontade. Diz o comentário do Missal Dominical: Cristo espera eternamente de braços abertos; o homem que optou contra Cristo, será queimado eternamente por aquele mesmo amor que repeliu (cf Missal Dominical- 2 de novembro). Aos que puderam fazer o bem, mas escolheram o mal, não poderá haver remédio como afirma o Senhor nas Sagradas Escrituras: Estes irão para o fogo eterno, enquanto os justos irão para a vida eterna (Mt 25, 46).

Porém, o destino que Deus deseja para nós é o paraíso. Somos povo da esperança e, ansiosos, aguardamos o momento em que ouviremos de Deus as palavras registradas nos Santos Evangelhos: Vinde, benditos de meu Pai, recebei em herança o Reino que meu Pai vos preparou desde a criação do mundo! Pois tive fome e me deste de comer, tive sede e me deste de beber... (Mt 25, 34).

Dom Gil Antônio Moreira
Arcebispo Metropolitano de Juiz de Fora

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