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Vencendo a intolerância religiosa

Na semana que precede a festa de Pentecostes, no Brasil, se reza pela união dos cristãos. Em outros países, a Semana de Orações se dá em janeiro, nos dias próximos à festa litúrgica da conversão de São Paulo Apóstolo. A diferença se dá pelo simples fato de, no Brasil, janeiro ser mês de férias e a participação poderia ficar prejudicada. Não importa. O que importa é orar para que os cristãos encontrem a união perdida no caminhar da história. É maravilhoso o movimento ecumênico, inter-confessional e o diálogo inter-religioso. Todos os que participam de bom coração se sentem fortalecidos na fé, animados na missão de anunciar Cristo, e enriquecidos na fraternidade. Quando nos unimos para a oração neste propósito, duas coisas ficam patentes, uma negativa outra positiva. Constata-se que, apesar dos esforços, muitos cristãos e muitas igrejas ainda não conseguiram dar o passo do diálogo, e, pior ainda, muitos são tão preocupados apenas com o número de fiéis, com medo de perdê-los, que chegam a ter verdadeiras atitudes de intolerância religiosa. Certa vez, nos esforços de ampliar a aproximação das igrejas, o grupo foi surpreendido com a afirmação de um dos ministros presentes acusando o movimento de diálogo como se fosse uma estratégia para igrejas que precisam aumentar o número de seus adeptos. Certamente, este irmão nada entendera e estava ainda padecendo da falta de verdadeiro espírito do evangelho, esquecendo-se da oração de Jesus, registrada pelo evangelista João: “Pai, que todos sejam um, como eu e Tu, Pai, somos um, para que o mundo creia”. (Jo 17,21)

Mas a atitude positiva supera todos os demais sentimentos. Unidos em oração, cada um se sente feliz de estar próximo, celebrando a palavra bíblica “Como é bom, como é suave, estar juntos como irmãos!” (Sl 133, 1-2). Experimenta-se a mística da unidade presente entre os primeiros cristãos que eram perseverantes em ouvir a palavra dos Apóstolos, na comunhão fraterna, na fração do pão e nas orações. (Atos 2, 42). O livro dos Atos dos Apóstolos ainda registra que “A multidão dos fiéis era um só coração e uma só alma. Ninguém considerava suas as coisas que possuía, mas tudo entre eles era posto comum.” (Atos, 4, 32) A união dos cristãos para a oração, de alguma forma, represencializa o milagre de Pentecostes, trazendo novamente a força do Espírito Santo capaz de vencer o medo, o desânimo e a fragilidade humana que impedem o ideal de unidade, de comunhão e autêntica fraternidade. De fato está escrito: Quando chegou o dia de Pentecostes, os discípulos estavam reunidos no mesmo lugar. De repente, veio do céu um ruído como um vento forte, que encheu toda a casa em que se encontravam. Então apareceram como que línguas de fogo que pousaram sobre cada um deles e todos ficaram cheios do Espírito Santo.” (Atos 1, 1-3).

Ao nos reunirmos a cada ano para rezar juntos, celebrar juntos, papear juntos, viver ao menos alguns dias esquecendo nossas diferenças, nunca deixamos de reafirmar que “o que nos une é muito mais forte do que o que nos separa”. Certamente estamos longe de uma unidade plena, mas não há dúvidas que estamos já realizando uma unidade possível. Só não a faz aquele que ainda não compreendeu bem quem é Cristo, pois foi Ele que profetizou: “haverá um só rebanho e um só Pastor” (Jo. 10, 16). Não nos perguntemos como isto se dará, mas o que posso e devo fazer para que a palavra do Mestre se realize. Unidos venceremos o mal, o ódio, a intolerância, construiremos juntos a paz e cantaremos felizes “O Senhor é meu Pastor, nada me falta” (Sl 22), realizando juntos o mandamento do Senhor: Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos”, como ensinou Jesus.

Dom Gil Antônio Moreira
Arcebispo Metropolitano de Juiz de Fora

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