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A morte do Monsenhor

Havia terminado de celebrar a Santa Missa. Eram dezoito horas. Tomou seu carro e partia para outra comunidade, onde elevaria novamente o Cálice da Salvação, consagraria o Pão da Vida e serviria novamente a Palavra aos fiéis. Com ele estava Dona Ilda Maria Nader Araújo, auxiliar nos trabalhos paroquiais, boa mãe de família, que veio a óbito às 22h30 no HPS, em Juiz de Fora.

Ao adentrar na pista asfáltica, o Padre não percorrera dois quilômetros quando seu carro foi violentamente atingido por outro que invadira a sua pista, guiado por motorista alcoolizado, segundo laudo policial, causando a morte do sacerdote e da fiel colaboradora.

Para além da dor terrível que o fato causou em nossa alma, no coração de todos os seus irmãos sacerdotes e da comunidade paroquial de Nossa Senhora das Estradas, a que servia ultimamente, umedecidos todos pelas lágrimas, algumas coincidências chamam à atenção de quem crê, o que vem sublimar o sofrimento e minimizar a dor. Para os que creem, as palavras tomam sempre novo sentido nos momentos certos, nos lugares certos, sobretudo nos acontecimentos incertos da vida. Deus é infinito em misericórdia!

Monsenhor Antônio Cornélio Viana, tendo sido ordenado sacerdote em 20 de dezembro de 1969, nos primeiros anos serviu a Deus na cidade de Trindade-GO, onde liderou a construção de grande parte do Santuário do Divino Pai Eterno, hoje famoso pela atuação de Padre Robson Oliveira Pereira, CSsR. Por mística coincidência, seu passamento se deu no sábado, aos 10 de junho à tarde, quando a Igreja já celebrava o Domingo da Santíssima Trindade, sendo esta a última liturgia que presidiu.

Na primeira leitura, havia ouvido, do Livro do Êxodo, as últimas palavras do texto litúrgico: ...acolhe-nos como propriedade tua (Ex 34,9). Ao Salmo, cantara ao Deus Altíssimo: Sede bendito no celeste firmamento (Dn 3).

Tendo sua vida marcada pela serenidade no relacionamento com todos, com manifesto dom de solucionar conflitos com maestria e contínuo sucesso, concluía a sua existência terrena ouvindo na segunda leitura os termos paulinos ditos aos Coríntios: ...encojai-vos, cultivai a concórdia, vivei em paz... (I Cor 13, 11). Leu no Evangelho do dia: Deus amou tanto o mundo, que deu seu Filho unigênito, para que não morra todo o que nele crer, mas tenha a vida eterna (Jo 3, 16).

Quem pode duvidar que estas palavras tenham sentido exato para o momento da partida de alguém que ofereceu a sua vida para proclamar a fé, para orar incessantemente, para semear a paz, para servir unicamente a Deus, superando desafios e problemas, para anunciar a ressurreição como fim último de nossa existência, para servir a Cristo, como discípulo, pregando a Palavra, celebrando a Eucaristia, fazendo o bem a todos?

Quem, movido pela fé, não enxergará sinal do amor de Deus, ao chamá-lo na ocasião em que as comunidades estavam celebrando os festejos de Santo Antônio, do qual recebeu o nome na Pia Batismal?

Quem deixará de associar seu passamento, provocado por pessoa dependente de álcool, aos seus contínuos esforços em favor da recuperação de jovens dominados pelas drogas, e sobretudo com seu interesse e efetiva participação na instalação de duas Fazendas da Esperança na Arquidiocese de Juiz de Fora?

Quem não encontrará o amor de Deus por esta alma que soube se esforçar para ultrapassar barreiras, para erguer-se de quedas, para santificar-se no correr da vida, mas nunca abandonar a Congregação do Santíssimo Redentor, vindo a ter sua última morada em jazigo de necrópole cuidada pela referida Congregação?

De minha parte, cheio de admiração e gratidão, entrego nas mãos de Deus o corpo e a alma deste santo homem, com certeza de que, enquanto esteve ao meu lado com várias funções eclesiais, foi um sacerdote exemplar na dedicação pastoral, na humildade da obediência (ele nunca recusou nem questionou nenhuma nomeação) e nunca exerceu qualquer missão, por mais simples que fosse, com tristeza ou má vontade.

Tendo sido Vigário Geral desta Igreja Particular por 13 anos, Pároco da Catedral Metropolitana por igual período, renunciou a estes cargos por desejar trabalho mais humilde. Porém, não pudemos dispensá-lo das funções de Ecônomo Arquidiocesano, o que exerceu com lisura e competência até o seu último dia entre nós.

Nascido em Carvalhos-MG, aos 5 de maio de 1937, completou seus oitenta anos no mês anterior, ocasião em que afirmara que estava feliz, pois não possuía mais nenhuma propriedade e que já se encontrava com sua “malinha pronta” (sic) para quando o Senhor o chamasse.

Às Missas de 7º dia, celebradas na sua Paróquia de Igrejinha e na Catedral Metropolitana, um grande número de fiéis compareceu comovidos e plenos de gratidão. Um grande painel com sua foto, na Paróquia de Nossa Senhora das Estradas, colocado ao lado do altar, parecia resumir sua pregação: “foi-se o missionário, continua a missão”!

Dom Gil Antônio Moreira
Arcebispo Metropolitano de Juiz de Fora

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